Valor Econômico, Internacional, p. A13
13 de Mar de 2015
Emissão global de CO2 parou de crescer, num bom sinal para o clima
Pilita Clark
Financial Times
A Agência Internacional de Energia (AIE) detectou que em 2014 não houve aumento nas emissões anuais mundiais de CO2 (dióxido de carbono), principal gás causador do efeito estufa, num sinal de que os esforços para combater as mudanças climáticas podem ter sido mais eficientes do que se imaginava.
"Foi uma verdadeira surpresa. Nunca havíamos visto isso antes", disse Fatih Birol, economista-chefe da AIE, recentemente indicado para ser o próximo diretor-executivo da entidade. Grandes mudanças no consumo de energia na China, maior emissor mundial de CO2, estiveram entre os principais motivos para a estabilização em 2014, de acordo com a AIE.
Em 40 anos, as emissões caíram ou não subiram em apenas três ocasiões, segundo a agência: depois do choque dos preços do petróleo e da recessão dos EUA no início dos anos 80; depois do fim da antiga União Soviética, em 1992; e durante a crise financeira mundial, em 2009.
Em 2014, no entanto, a economia mundial cresceu mais de 3% e a quantidade de CO2 emitida continuou no mesmo nível de 2013, de 32,3 gigatoneladas. Em todos os casos anteriores, quedas na demanda levaram à desaceleração na produção das fábricas e das usinas de energia, que estão entre as principais fontes de emissões de dióxido de carbono. Nos últimos dez anos, o aumento médio das emissões foi de 2,4%.
A AIE, que monitora as tendências mundiais de energia, vai publicar as descobertas em informe em 15 de junho, no qual aconselhará os governos sobre que medidas energéticas deveriam ser acertadas na conferência do clima da ONU em Paris em dezembro, quando se espera que líderes mundiais concluam um acordo contra as mudanças climáticas.
"Não poderia haver melhor notícia para Paris", disse Birol, uma das vozes mais respeitadas no setor de energia.
A China reduziu o uso de carvão, uma das maiores fontes de emissões de CO2, e instalou mais usinas hidrelétricas, eólicas e solares.
Ao mesmo tempo, o consumo de eletricidade, que vinha crescente cerca de 10% por ano, desacelerou-se para 3% a 4%, depois de a China ter imposto padrões de eficiência energética para o setor, fechado velhas fábricas e passado a se afastar da indústria pesada que costumava impulsionar seu crescimento econômico.
Outro motivo para as emissões não terem aumentado é que países de alta renda da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que almeja promover o crescimento sustentável, começaram a "dissociar" o crescimento do aumento de emissões ao instalar mais usinas de fontes renováveis e ao criar padrões mais rígidos para o consumo de energia de quase tudo, dos eletrodomésticos aos carros.
Nos últimos cinco anos, as economias da OCDE cresceram quase 7%, enquanto as suas emissões caíram cerca de 4%, segundo a AIE.
Isso aconteceu por causa de medidas deliberadas, que os governos precisam aprimorar no pacto em Paris para que o mundo consiga evitar um aumento médio de 2oC na temperatura mundial em relação ao período pré-industrial, algo que seria potencialmente perigoso para o clima, segundo Birol. De outra forma, a atual estabilização das emissões poderia acabar sendo apenas "um ponto de brilho temporário dentro de uma tendência geral alarmante", disse.
Isso é especialmente importante no caso de economias como a da Índia e outras de alto crescimento, onde vivem 1,2 bilhão de pessoas sem acesso a eletricidade. Muitos desses países planejam construir usinas de energia alimentadas a carvão, altamente poluidoras, o que consolidaria o risco de um aumento nas emissões por décadas.
Cientistas especialistas em clima dizem que é muito mais fácil e barato evitar um aquecimento médio de 2oC se as emissões mundiais de CO2 forem estabilizadas rapidamente. Como o dióxido de carbono é um gás causador do efeito estufa de longa duração, as emissões precisam ser derrubadas para perto de zero, uma questão que já divide países neste período que antecede as negociações em Paris.
Valor Econômico, 13/03/2015, Internacional, p. A13
http://www.valor.com.br/internacional/3951528/emissao-global-de-co2-par…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.