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Emergência na Amazônia

O Globo, Ciência, p. 34
10 de Set de 2008

Emergência na Amazônia
Temperatura na região pode subir 2 graus Celsius já em 2010

Carlos Albuquerque

Uma Amazônia cada vez mais quente e seca já a partir de 2010. Esse é o desolador cenário desenhado pelo primeiro de uma série de três relatórios feitos em parceria pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Vale sobre os efeitos do aquecimento global na região. Divulgada ontem em Belém, a pesquisa, inédita por seu nível de detalhamento e utilização de dados locais, mostra que as temperaturas nos estados do Pará e Maranhão - foco do estudo - podem subir até 2 graus Celsius a partir de 2010. Em relação aos índices pluviométricos, a projeção é de uma redução de chuvas de até 10% entre 2010 e 2040.
A revelação lança perspectivas sombrias para a floresta, dadas as estimativas anteriores de savanização, considerada quase inevitável por alguns especialistas se o atual ritmo da devastação continuar inalterado.
- Esse trabalho visa identificar os pontos vulneráveis da região e seus possíveis impactos em relação às mudanças climáticas - explica o cientista do Inpe Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do mundo em Amazônia. - A idéia é que esses dados sirvam para o desenvolvimento de políticas de adaptação.
Projeções com dados locais
No trabalho, os cientistas do Inpe estudaram as variações do clima na região tendo três períodos como referência: 2010-2040, 2041-2070 e 2071-2100. Além do aspecto metodológico, esse períodos possibilitaram que se tornasse mais perceptível o andamento das mudanças climáticas na Amazônia.
- O que temos de avaliações anteriores, como as feitas pelo Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), são, em boa parte, estudos e projeções relativas ao final do século - conta o gerente geral de Mudanças Climáticas da Vale, Flávio Montenegro. - São dados importantes, claro, tanto que foram usados como base desse estudo, mas são projeções muito distantes. O que fizemos foi aproximar essas projeções para que elas possam ser mais perceptíveis ao radar da sociedade.
O relatório utilizou como base para a análise dois cenários usados pelo IPCC. Um, mais extremo, com alta concentração de gases do efeito estufa. Outro, mais otimista, com baixa concentração e o cumprimento das metas de redução previstas pelo Protocolo de Kioto.
- No cenário de estabilização, as temperaturas não passariam muito de 2,5 graus Celsius. No outro, tudo continua como está e as temperaturas poderiam subir até 4 graus Celsius - diz Carlos Nobre, ele mesmo um dos representantes do Brasil no IPCC e ganhador do prêmio Nobel da Paz, concedido ao grupo em 2007. - Na verdade, nem gosto muito de usar os termos "otimista" e "pessimista" em relação ao clima porque a realidade é muito pior do que o pior cenário imaginado no começo dessa década.
A estimativa do relatório é de que, entre 2010 e 2040, a temperatura pode ficar até 2 graus Celsius mais elevada na área que abrange o leste do Pará até o Maranhão.

Secas e chuvas mais extremas
No período de 2041-2070, a previsão é de um aumento de até 4 graus Celsius. Em relação aos índices pluviométricos, as projeções feitas pelo estudo - que analisou áreas de 50 em 50 quilômetros, em vez dos 200 a 300 quilômetros dos modelos usuais - indicam redução de chuva de até 10%, entre 2010 e 2040; e de até 20%, entre 2041 e 2070.
Para o período de 2071-2100, relatório prevê um aumento ainda maior da temperatura, de até 7 graus, com alternância de períodos longos de seca com precipitações concentradas.
- Os extremos serão mais freqüentes - conta Nobre. - Isso é uma coisa que podemos esperar também para outras regiões. Isso não significa que a chuva, como um todo, vai aumentar. Mas quando acontecer, ela vai ser mais intensa, trazendo o risco de inundações. Já o agravamento dos períodos mais secos, pode significar um estresse ambiental a mais no já grave cenário das queimadas na região.
Os outros relatórios, mostrando os impactos das mudanças climáticas na fauna, flora, agricultura, saúde e geração de energia devem ser divulgados no começo de 2009.

Os principais números

De 2010 a 2040: A temperatura deve se elevar em até 2o Celsius e a redução das chuvas poderá ser de 10% do leste do Pará ao Maranhão

De 2041 a 2070: A elevação das temperaturas pode chegar a 4o Celsius, com redução de 20% do índice pluviométrico.

De 2071 a 2100: A temperatura aumenta ainda mais. A elevação pode chegar a 7o Celsius nas regiões do leste da Amazônia e do norte do Maranhão, de acordo com o pior cenário traçado. A previsão é de longos períodos de seca com precipitações concentradas em algumas épocas do ano.

O Globo, 10/09/2008, Ciência, p. 34

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