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Em Minas, PM pode romper com Ibama por falta de verba

OESP, Vida, p. A18
20 de Abr de 2006

Em Minas, PM pode romper com Ibama por falta de verba
Falta de repasse já levou Polícia Militar do Meio Ambiente a suspender convênio de 16 anos

Eduardo Kattah

A fiscalização e repressão a crimes ambientais nos parques, florestas nacionais e outras áreas de proteção federal em Minas Gerais encontram-se vulneráveis desde dezembro do ano passado. A falta de repasse pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) de parte dos recursos arrecadados com multas levou a Polícia Militar do Meio Ambiente a suspender o convênio que mantinha com o órgão federal desde a sua criação, há 16 anos. A suspensão é de até 180 dias. Se um novo acordo não for firmado até junho, o contrato de cooperação entre Ibama e PM deverá ser rescindido.
O efetivo policial treinado para a atividade ambiental em Minas é de aproximadamente 1.200 homens. O Ibama, por outro lado, admite que tem somente cerca de 50 agentes no Estado - de um total de aproximadamente 220 funcionários - capacitados para essa finalidade. A estimativa é que a PM seja responsável por mais de 90% das notificações em Minas.
Pelo convênio, a PM teria direito a receber, por meio de repasses trimestrais, em torno de 50% de todo o dinheiro arrecadado pelo Ibama com a aplicação de multas. Os recursos seriam utilizados para financiar os gastos da corporação nas ações de fiscalização, principalmente para manutenção de veículos e equipamentos.
De acordo com o coronel Helvécio Gomes, diretor de Meio Ambiente e Trânsito da PM mineira, uma comissão mista chegou a ser constituída para tratar do assunto e reconheceu uma dívida do Ibama de R$ 1,6 milhão até junho de 2005. Desse total, o órgão federal liberou R$ 450 mil em duas parcelas. "Em dezembro, como não houve nenhuma solução, nós suspendemos o convênio", disse.
As notificações de multas feitas pela PM no ano passado somaram cerca R$ 25 milhões, segundo o coronel. "A gente não sabe o quanto foi efetivamente arrecadado, (mas) também não recebemos nada", afirmou Gomes, destacando que o problema de inadimplência do órgão federal se arrasta há anos.
A justificativa para o atraso e o não repasse de verbas está na concentração da arrecadação pelo Ibama em Brasília. Antes de serem transferidos para a PM, os recursos entram primeiro no caixa do Tesouro Nacional. "O dinheiro era recolhido e depois repassado à polícia. E aí ocorriam atrasos, contingenciamento. Estamos tentando fazer uma simplificação para que os recursos possam cair diretamente na conta da polícia", observou o superintendente regional do Ibama, Roberto Messias Franco.
Ele admite que, sem os repasses, a PM encontra "sérias dificuldades" para cobrir os custos de operação. Franco defende a retomada do convênio e diz que "só tem elogios" ao trabalho da corporação, que conta com um efetivo "bem preparado".
CONTINUIDADE
A Assessoria de Imprensa do Ibama em Brasília informou ontem que a continuidade do convênio com a polícia mineira está sendo analisada pelo órgão. O Ibama garantiu que irá pagar pelo serviço prestado pela corporação, mas não estipulou data para a quitação.
"Não sei se há uma predisposição de alguém para que esse convênio seja definitivamente suspenso. Não acredito nisso", comentou o coronel. "A nossa proposta é de resgatar esse convênio. Mas, em junho, se o Ibama não tomar nenhuma providência, ele será rescindido. O Estado, na verdade, não tem condições de a todo tempo dar esse suprimento."
Na prática, a suspensão gera entraves para a fiscalização e repressão policial nas áreas federais e mais custos para o Ibama. Em caso de eventuais flagrantes, a PM se limita a registrar os boletins de ocorrência e comunicar o instituto, que tem de se responsabilizar pelo auto de infração. Antes, a PM registrava a ocorrência e ela própria aplicava a multa.
PARQUES
Em Minas existem 15 unidades de preservação e pesquisa sob a responsabilidade do Ibama: sete parques nacionais que totalizam 550 mil hectares; três áreas de proteção; três florestas nacionais; uma reserva biológica; uma estação ecológica e uma base avançada de pesquisa. Sete dos 68 parques nacionais encontram-se no Estado, que só empata em número com a Bahia
No Parque Nacional da Serra da Canastra, no sudoeste do Estado, por exemplo, o reflexo do eventual cancelamento do convênio poderá ser sentido de forma mais dramática. O próprio Ibama defende a ampliação do parque, onde fica a nascente do Rio São Francisco, para a área original, de 200 mil hectares. Somente 71 mil hectares foram demarcados na criação do parque, em 1972.
A medida enfrenta a resistência de mineradoras de quartzito, concentradas no município de São Sebastião do Glória, cujas atividades comprometem a fauna e a vegetação. As mineradoras foram embargadas, mas a repressão à exploração clandestina depende de fiscalização constante. O chefe interino do parque, Wagner de Lima Moreira, admite que o Ibama tem apenas três fiscais para o trabalho.
No Parque Nacional do Caparaó, que abriga o terceiro ponto mais alto do País, o Pico da Bandeira, são apenas dois funcionários para a fiscalização do lado mineiro, informa um deles, Elianir Bezerra. Dos 31,8 mil hectares que compõem o parque, 30% está em Minas e o restante no Espírito Santo.
A situação só não é considerada mais grave porque a PM mineira tem parcerias com órgãos estaduais, como a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). Com isso, os entornos dos parques continuam sendo fiscalizados.
Apesar do impasse envolvendo a fiscalização das áreas federais, o Ibama estuda a criação de três reservas extrativistas em Minas.

MP tenta retomar o convênio e garantir fiscalização

O Ministério Púbico Federal em Minas tenta intermediar a retomada do convênio entre a Polícia Militar do Meio Ambiente e o Ibama. A procuradora Zani Cajueiro Tobias de Souza disse que já se reuniu com representantes da corporação e do órgão federal na busca de um entendimento. "O Ibama é o maior prejudicado e conseqüentemente o meio ambiente. A fiscalização não era feita diretamente pelo instituto, a não ser em raríssimas exceções", observou.
Segundo Zani, o último caminho seria a ajuizar uma ação civil pública para tentar garantir a fiscalização nas unidades federais de proteção em Minas. "Mas precisamos é de uma medida urgente. Não adianta ficar litigando durante cinco, seis anos."
A procuradora avalia que é competência do Ministério Público Estadual (MPE) cobrar o "passivo" do Ibama. Fernando Galvão, da Promotoria Especializada na Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPE, ficou surpreso com a notícia da suspensão do convênio. "É lamentável, a atuação no Estado vai ficar extremamente comprometida", afirmou.
MPF e MPE, porém, salientam que a polícia não "pode fechar os olhos" para a fiscalização, mesmo em áreas de proteção federal. "Tem de ter recursos tanto do Estado quanto da União", disse a procuradora, lembrando que a Polícia Federal não tem efetivo nem essa atribuição.
Servidores do Ibama relataram ao Estado que a gerência do órgão em Minas está "sucateada", com diversos débitos acumulados. "O Ibama tem um problema financeiro crônico", observou Zani.

OESP, 20/04/2006, Vida, p. A18

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