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Em meio à crise, governo de SP fiscaliza 300 km de rios para barrar furto d'água

OESP, Metrópole, p. A18
20 de Jul de 2014

Em meio à crise, governo de SP fiscaliza 300 km de rios para barrar furto d'água
Sobrevoos ocorrem em busca de captações clandestinas e blitze em indústrias e fazendas já resultaram em 12 multas e 170 advertências por retiradas sem autorização e com volume superior ao permitido

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

A escassez hídrica em São Paulo levou o governo Geraldo Alckmin (PSDB) a lançar uma ofensiva contra o furto de água na Grande São Paulo e em cidades do interior abastecidas pelo Sistema Cantareira, que passa pela pior estiagem da história. Só na região de Campinas, mais de 300 quilômetros de rios foram sobrevoados em busca de captações clandestinas e uma série de blitze em indústrias e fazendas já resultou em 12 multas e 170 advertências por retirada de água sem autorização e com volume superior ao permitido.
O cerco às fraudes em captações diretas nos rios foi intensificado em maio pelo Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), responsável pela fiscalização, a pedido do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce. À época, o Cantareira estava com cerca de 9% da capacidade, e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) ainda não havia iniciado a retirada do volume morto do manancial, reserva de água represada abaixo do nível das comportas de captação. A pasta não informou os nomes dos responsáveis flagrados na operação.
Segundo a secretaria, apenas entre maio e a última sexta-feira, 282 locais já haviam sido vistoriados pelos fiscais, a maioria com captações subterrâneas (119). Mas são as retiradas superficiais, onde 84 pontos já foram alvo de blitze, que mais preocupam. No dia 10, técnicos da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) de Campinas acompanharam o sobrevoo do Rio Atibaia, que abastece 95% da cidade, em busca de captações clandestinas. Antes da crise, as fiscalizações praticamente só ocorriam quando havia denúncia.
Segundo a empresa, a suspeita é de que as retiradas irregulares sejam responsáveis pelas quedas repentinas de até mil litros por segundo na vazão do rio na chegada ao município. Técnicos da empresa acreditam que a água possa estar sendo desviada para encher açudes particulares da região. Procurado, o presidente da Sanasa, Arly de Lara Romêo, não quis gravar entrevista.

Fraudes. Em outra ponta, o cerco a residências e comércios feito pela Sabesp desde janeiro resultou em 5.560 flagrantes de fraudes até maio nas cidades onde opera na Grande São Paulo e na região de Bragança Paulista. De acordo com a companhia, o volume de água desviado em ligações clandestinas chega a 1 bilhão de litros, suficiente para abastecer 250 mil pessoas por um mês, população somada dos bairros da Penha (zona leste) e da Vila Mariana (zona sul), na capital paulista.
Ainda segundo a Sabesp, os suspeitos flagrados pela fiscalização, que tem o apoio da polícia, são levados para a delegacia e indiciados por furto, cuja pena é de 1 a 4 anos de prisão, além da aplicação de multa. A empresa informou ainda que cobra pelo volume de água que foi desviado.
Apesar dos esforços para "recuperar" água, o nível dos dois principais reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo continua em queda. Além do Cantareira, que opera com cerca de 17% da capacidade, o Alto Tietê ficou abaixo de 23% pela primeira vez em uma década.

Poços 'caipiras' estão secando no Cantareira
Estiagem afeta reservas com até 30 metros de profundidade, usadas por diversas famílias

O medo do caseiro Natalício Correia Vilela, de 27 anos, era "dar pedra". Seriam seis meses desperdiçados com 25 metros de escavação para encontrar rochas. "Deu água", comemorou. "Só não sei até quando."
O drama de Vilela se tornou rotina em Bragança Paulista, a 90 quilômetros da capital, onde ficam as duas maiores represas do Sistema Cantareira. A estiagem na região também está afetando os poços "caipiras" - de até 30 metros de profundidade - de diversas famílias que dependem, exclusivamente, da captação subterrânea.
Em janeiro, quando estourou a crise no manancial, o nível de água do poço que o caseiro dividia com o irmão baixou de 3 metros para 70 centímetros. A solução encontrada foi mudar de casa e cavar um novo buraco em busca de água. "O pessoal só fala da represa, mas a seca está acabando com o lençol freático. Vários poços aqui já secaram de vez", disse Vilela.
Foi o que aconteceu na casa do segurança Benedito Aparecido Pinheiro, de 34 anos, há dois meses. Sem água, ele fez como o governo do Estado e foi atrás do volume morto. Contratou um pedreiro por R$ 500 para afundar seu poço em mais 2 metros. "Se não fosse isso não tinha água hoje. Agora a gente está economizando o que pode para não ficar sem. Antes dessa crise, a água batia 5 metros de altura."
Segundo Sérgio Werneck Filho, CEO da empresa Nova Opersan, especializada em soluções ambientais para tratamento de água e esgoto, poços rasos como o de Pinheiro e Vilela ficam tão sujeitos às questões climáticas quanto as represas. "Esses poços captam água do lençol freático e sofrem de forma imediata os efeitos da estiagem porque sem chuva a terra não absorve água. Nesses casos, só um poço artesiano, com 300 metros de profundidade", afirma.

Artesianos. Jacy Acácio dos Santos, dono da empresa Tecsonda, que instala poços em todo o Estado, disse que a seca nos reservatórios caipiras fez triplicar a procura pelos artesianos na região desde janeiro. "Só de pedido de orçamento são 30 por dia. Ele custa mais caro - cerca de R$ 25 mil -, mas é mais seguro com relação à contaminação e não há risco de secar", explica.
Sem disposição para investir essa quantia, o contador João Ricardo Barbosa Coelho, de 52 anos, abandonou a casa de campo que tem há 17 anos na beira da Represa Jacareí porque a mina de onde captava água secou no fim de 2013. "Até a casa do caseiro, que tem um poço mais profundo, demora de três a quatro dias para acumular 200 litros. Uma alternativa seria pegar água na represa, mas o espelho d'água de 300 metros que tinha na frente de casa desapareceu."

OESP, 20/07/2014, Metrópole, p. A18

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