OESP, Metrópole, p. A25
18 de Mai de 2014
Em Marsilac, poço seco faz morador ir até mina
População que mora no extremo sul da cidade tem de caminhar para ter água; cisternas secaram dois meses antes do previsto
Diego Zanchetta - O Estado de S.Paulo
A 55 quilômetros do centro de São Paulo, no distrito de Engenheiro Marsilac, extremo da zona sul, a seca em poços artesianos que abastecem cerca de 30 mil pessoas começou dois meses antes do previsto neste ano. A maior parte da região não tem água encanada da Sabesp - a legislação estadual impede a construção de tubulações subterrâneas em áreas de preservação ambiental e de mananciais.
Com dois baldes de plástico de 20 litros cada, Valdir Ribeiro, de 54 anos, anda todos os dias 2,5 quilômetros de sua casa, no km 47 da Estrada de Marsilac, no Jardim Imbuia, até a mata onde está uma mina usada por moradores da região.
"Normalmente o poço fica sem água entre julho e setembro. Só que, neste ano, acabou antes, em abril. Agora, só indo até a mina", conta Ribeiro, que mora com a mãe, Vicentina Godoy, de 66 anos. Ela também caminha na mata para buscar água todos os dias.
"O nível dos rios caem, e o poço seca ao mesmo tempo. Mas nunca tinha faltado água em abril, maio. Era só a partir de julho. A coisa está feia, a gente economiza cada gota aqui. Roupa, só lavamos na mão mesmo", diz Vicentina. Quando ela liga o poço para tentar bombear água para sua caixa d'água improvisada no quintal, as paredes da casa trepidam com o barulho, parecido com o do motor de uma Kombi.
A situação é pior ainda para quem mora na região da Estrada do Mato Alto, quase dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, última região habitada de São Paulo antes do Parque da Serra do Mar.
Lá, os moradores têm feito mais escavações, na tentativa de aprofundar os poços secos. "O difícil é que não sabemos qual é a qualidade da água do fundo. Mas não há opção. Secou tudo o que era poço. Mesmo na mina lá dentro da Serra do Mar, a água virou um filetinho só", diz Mariana Roscht, de 52 anos, em Marsilac desde 1974.
Mina. Em Parelheiros, também no extremo sul, a falta de água atinge a populosa Vila Rocha, onde a maioria dos moradores também usa poços artesianos. "Está todo mundo indo buscar água nas minas no meio do mato. Só lá agora o poço secou. Eu tenho comido na panela para não 'gastar' prato. Como vou lavar louça?", diz o marceneiro Eduardo Bello, de 48 anos.
Bello conta já ter passado três dias, no início do ano, sem uma gota nas torneiras. "Estou aqui há três anos só, morava no centro. Queria sossego, mas sem água prefiro voltar. Estou economizando dinheiro para sair daqui." / DIEGO ZANCHETTA
Situação do Grajaú vai melhorar até outubro, diz Sabesp
A Sabesp informou que o fornecimento de água nos bairros da região do Grajaú vai ter a capacidade mais do que dobrada a partir de outubro, quando será inaugurado um reservatório que vai ampliar a capacidade de armazenamento de água de 10 milhões de litros para 25 milhões de litros. "Em razão do crescimento desordenado da região, com a presença de vários loteamentos irregulares, existe a possibilidade de eventuais intermitências no fornecimento de água neste ponto alto do bairro", informou a companhia.
Sobre o problema específico da Rua Professor Francisco Marques de Oliveira Júnior, a Sabesp informa que "promoveu melhorias para regularização do abastecimento do local". A companhia ainda diz que a região de Parelheiros tem abastecimento normal. "Vale lembrar que a mesma recebeu grandes investimentos, como a construção de dois reservatórios de 10 milhões de litros cada", informa. Já na Estrada do Marsilac, a Sabesp diz não ter rede, "uma vez que a região está inserida em área de proteção ambiental, existindo, portanto, restrições legais para o sistema de distribuição de água". / D.Z.
'Faz uma semana que meu prédio entrou em esquema de rodízio'
Condomínio na zona oeste de SP recebe água apenas duas horas por dia: uma de manhã e outra à noite; torneiras estão secas
Ana Carolina Saoman, editora do Metrópole
"Primeiro veio o aviso: 'Caros condôminos, nosso abastecimento está irregular, precisamos economizar água. Quem for pego lavando janela ou sacada será multado'. No dia seguinte, torneiras secas. Todas: banheiros, cozinha, lavanderia. Nada no chuveiro. Poeira.
Liga para o porteiro: 'A água só vai voltar à noite, senhora'. Como? 'Sim, só à noite e durante uma horinha só, melhor aproveitar'. Mas aproveitar como, se eu fico fora de casa o dia inteiro?
Não imaginei que teria esse diálogo surreal com o meu porteiro tão rápido. Ontem fez uma semana que o meu prédio entrou em esquema de rodízio. Só recebemos água duas horas por dia: uma de manhã e outra à noite. Não moro em bairro alto nem distante do centro, como os mostrados na reportagem que acompanha este depoimento - são 11 km da minha casa, na zona oeste de São Paulo, até a Praça da Sé.
Mesmo assim, as torneiras do condomínio, onde moram cerca de 1 mil pessoas, estão secas. Os banhos, antes de manhã, agora são de madrugada, quando chego do trabalho e, com sorte, pego a caixa ainda abastecida (deu certo até agora). Lavar o rosto? Água termal. Escovar os dentes? Mineral. E dá-lhe xampu seco (uma boa e relativamente desconhecida invenção da indústria cosmética) no cabelo. Ainda não pensei como vou fazer com a roupa suja. Lavar de madrugada? Na lavanderia? A ver.
Não, não estou armazenando água nem penso em fazer isso, por não ter espaço em casa e não achar que vá resolver o problema. E ainda tem a multa. A conta de água não é individualizada. Por isso, se o condomínio como um todo não economizar, ainda vamos ser penalizados. Os vizinhos não estão muito felizes...
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) nega o racionamento e diz que, "por causa de manobras técnicas operacionais para a transferência de vazões dos Sistemas Guarapiranga e Alto Tietê para atendimento de alguns bairros, atualmente abastecidos pelo Sistema Cantareira, podem ocorrer eventuais momentos de desabastecimento, especialmente nos pontos altos". Justificativa parecida foi dada para outras pessoas que moram em regiões diferentes da cidade.
E não há previsão de que essa situação vá mudar tão cedo, nem mesmo com o uso do "volume morto" - iniciado na quinta -, previsto para chegar às torneiras de 8 milhões de consumidores a partir de hoje.
OESP, 18/05/2014, Metrópole, p. A25
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