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Em cinco anos, ONG retira 30 toneladas de lixo de área mais preservada da Baía de Guanabara

O Globo, Rio, p. 14
Autor: Ana Lucia Azevedo
01 de mar de 2020

Em cinco anos, ONG retira 30 toneladas de lixo de área mais preservada da Baía de Guanabara

O Projeto Uçá elaborou um ranking dos dez principais tipos de lixo que poluem o local e viu que 83% dos dejetos são de plástico

Ana Lucia Azevedo

RIO - Há um lugar onde chinelos se dependuram aos milhares em galhos, televisões brotam do chão, como árvores, e garrafas PET, de tão numerosas, se fazem de grama. Por mais que sejam arrancados, como ervas daninhas, eles reaparecem a cada dia para infestar um dos últimos paraísos da Baía de Guanabara. São os frutos da falta de saneamento e de educação, evidenciados por um trabalho de coleta de lixo realizado por ambientalistas, pescadores e catadores de caranguejos do Projeto Uçá.

Por cinco anos, eles recolheram 33 toneladas de resíduos que chegam à Estação Ecológica da Guanabara, em Guapimirim. Ali, fica o manguezal mais preservado da Baía de Guanabara e a maior faixa contínua de mangues do Estado do Rio. O projeto elaborou um ranking dos dez principais tipos de lixo que poluem o local e revelou um mar de plástico, pois 83% dos dejetos são feitos desse material. Garrafas PET aparecem em primeiro lugar, com quase 36 mil unidades. Em seguida, sacolas plásticas e isopores. Sapatos e chinelos foram encontrados aos montes: somados, totalizaram 15.393.

A área é degradada pelo lixo lançado nos rios pelos municípios vizinhos. Os detritos chegam aos mangues trazidos pelos rios Guaxindiba, Guapi-Macacu e Caceribu. Vêm dos municípios de São Gonçalo, Itaboraí e Guapimirim. E, devido às correntes marinhas, uma parte é trazida também de Duque de Caxias.

- A falta de saneamento, com a coleta de lixo extremamente ineficiente ou ausente em muitas comunidades, é o fator preponderante. Mas falta também educação, pois as pessoas se acostumaram a fazer dos rios de lixeiras, para a água levar embora tudo o que não querem mais - afirma o biólogo Pedro Belga, coordenador do Projeto Uçá, da ONG Guardiões do Mar, que tem patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental.

A área onde o grupo atua não é grande, mas significativa devido à importância ambiental, pois os manguezais são berçários para dezenas de espécies de peixes e crustáceos e base de um ecossistema rico em biodiversidade. A estação ecológica é parte do chamado "pantanal carioca", os manguezais da APA de Guapimirim, onde há robalos e outras 166 espécies de peixes, 242 de aves, 34 de répteis e 32 de mamíferos.

Até agora, 15 hectares foram limpos pelos integrantes do projeto. Somente na última etapa, entre novembro de 2019 e janeiro passado, foram removidas mais de 10 toneladas de resíduos sólidos em 10 hectares de manguezais. Chamada de Operação LimpaOca, a limpeza é feita por pescadores e catadores de caranguejos durante o período de defeso do caranguejo-uçá. Os trabalhadores que participam do projeto recebem uma bolsa-auxílio para coletar o lixo duas manhãs por semana.

Trabalhar nos mangues é para os fortes. A lama escura e viscosa é infestada de mosquitos e outros insetos e cede facilmente à primeira pisada. Atolar até a altura da cintura é comum e conseguir sair exige grande esforço.

- Tirar um pneu, por exemplo, é uma tarefa hercúlea e pode custar o dia de trabalho. Os catadores são guerreiros do mangue - frisa Pedro Belga.

'Ilha' de detritos
A próxima etapa da operação, diz ele, será ainda mais desafiadora. O grupo planejam limpar uma das maiores concentrações de lixo da Baía de Guanabara, a "ilha" de detritos formada em Campos Elísios, em Duque de Caxias. Ela fica junto a uma área conhecida como Ilha do Morro Grande porque rios e canais parecem separar os manguezais do continente. A "ilha" tem cerca de 20 hectares e uma camada de lixo de pelo menos um metro de profundidade. Os detritos são trazidos por rios e correntes e pelo vento Sudeste.

A retirada do lixo traz o benefício imediato de recuperar locais de reprodução de caranguejos. Também permite que mudas dos mangues possam se estabelecer e restaurar a vegetação perdida.

O lixo é levado para o Núcleo de Gestão Integrada da APA de Guapimirim e Estação Ecológica da Guanabara. Lá, são feitas a triagem e a avaliação da origem dos resíduos, o que permite identificar alguns dos principais poluidores.

-Já está mais do que na hora de as pessoas se preocuparem com a Baía. Ela insiste em viver apesar dos ataques diários, mas morre um pouco a cada dia - alerta Belga.

A saga de um banheiro químico que 'navegou' quase 20 km
Equipamento foi levado de obra por traficantes e jogado em rio após baile funk

Como se um barco fosse, numa terra onde os mares são tratados como lixo, ele foi lançado às águas e singrou rios. Atravessou comunidades populosas, cruzou ruas movimentadas. Foi visto e devidamente ignorado, como se banheiros químicos navegantes fossem uma coisa trivial, do dia a dia. Navegou em águas poluídas por 20 quilômetros até ser finalmente lançado nos mangues da Estação Ecológica da Guanabara.

Desencalhado do manguezal à custa de muito esforço de pescadores e catadores de caranguejos, o banheiro químico se tornou um símbolo da falta de saneamento e educação.

- É chocante. As pessoas viram um banheiro químico passar flutuando pelo rio e acharam normal. O banheiro passou por áreas muito povoadas e não foi removido - lamenta Pedro Belga.

Graças a uma placa intacta presa na porta do banheiro químico, a equipe do Projeto Uçá descobriu a que empresa ele pertencia. Procurada, informou aos ambientalistas que o dera como perdido e contou que, antes de navegar, o banheiro também teve uma história mirabolante. Alugado por uma obra em Alcântara, em São Gonçalo, ele foi cobiçado por traficantes, que visitaram o local e pegaram o banheiro "emprestado" para um baile funk nas imediações. Depois da festa, jogaram o equipamento no rio.

De posse do endereço da obra e do local onde o baile aconteceu, os ambientalistas descobriram que o banheiro só poderia ter chegado aos mangues pelo Rio Guaxindiba. Ele não passa no local do baile, mas recebe as águas imundas do Rio Alcântara, onde a saga do banheiro navegante foi iniciada. A partir daí, Belga concluiu que o banheiro percorreu quilômetros até parar no manguezal.

- Já achamos sofás, fogões, todo tipo de lixo. Mas o banheiro químico retrata bem o estado de abandono em que se encontra a Baía.

O Globo, 01/03/2020, Rio, p. 14

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