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Em busca de um pirarucu ecologicamente correto

Época - http://epoca.globo.com
Autor: Alexandre Mansur
06 de ago de 2015

Diretor dos programas de certificação da pesca no Brasil diz que teremos peixes com selo verde nas Olimpíadas. Mas ainda não os da Amazônia

Os consumidores brasileiros mais conscientes já se acostumaram a verificar se alguns produtos têm selo verde. O certificado mais comum é o FSC, que garante a origem não predatória de produtos florestais. Pouca gente, no entanto, conhece a versão do certificado para produtos do aquáticos. Ele garante que aquele pescado não vem de áreas com práticas danosas para o mar ou para os rios. Esse tipo de peixe ecologicamente correto pode ficar mais famoso com os Jogos Olímpicos. O comitê organizador dos jogos anunciou que quer servir até peixes brasileiros da Amazônia nos restaurantes da Vila Olímpica. Para entender melhor com isso funciona, conversei com Laurent Viguié, diretor do programa de certificação marinha no Brasil e do selo ecológico de água doce na América Latina.

ÉPOCA: A certificação de produtos florestais é mais famosa. Como é a de produtos pesqueiros?
Laurent Viguié: O World Wildlife Fund (WWF) criou dois padrões de sustentabilidade. O Marine Stewardship Council (MSC) é o padrão para captura selvagem. O Aquaculture Stewardship Council (ASC) é o padrão para a aquicultura. O MSC foi criado em 1999 e tem 260 pescas certificadas em todo o mundo (cerca de 15% das capturas selvagem do mundo). O ASC foi criado em 2010 e tem 190 fazendas certificadas em 18 países.

ÉPOCA: Existe algum produto com certificação MSC no Brasil?
Laurent: Ainda não. Há pescas no Brasil em processo de certificação, como sardinha e atum no Sul. Mas nenhuma certificada.

ÉPOCA: O que está sendo feito em parceria com o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio?
Laurent: O Comitê Olímpico Rio 2016 assinou um acordo tanto com o MSC quanto com o ASC, dizendo que todos os frutos do mar que abastecerão os Jogos serão certificados. O Comitê Olímpico também assinou um acordo com o MSC, o ASC, e a FIPERJ (Departamento de Peca e Aquicultura do Estado do Rio), para priorizar, nos jogos, frutos do mar produzidos localmente. A FIPERJ colocou 5 pescas no programa de certificação MSC, que não serão certificadas à tempo para os Jogos. No entanto, produtos de aquicultura produzidos localmente, por produtores de pequena escala, como: tilápia, truta e beijupirá serão certificados em tempo para os Jogos.

ÉPOCA: Podemos esperar que todos os pescados oferecidos nos jogos sejam certificados?
Laurent: Além dos produtos brasileiros, teremos salmão certificado do Chile, merluza da Argentina e bacalhau. A merluza é a mesma que o MacDonald's usa no Brasil.

ÉPOCA: Qual será o papel do evento para estimular a certificação na área da pesca?
Laurent: Será um papel muito importante, já que o evento vai ajudar a destacar os problemas enfrentados por pescas e aquicultores no Brasil. Esperamos sensibilizar os consumidores para estes problemas. Muitas das pescarias brasileiras enfrentam problemas reais para sobreviver no futuro. O principal problema é o mercado: é mais fácil para um supermercado para comprar polaca do Alasca do que está a comprar mais peixe brasileiro. O peixe já chega repartido e embalados da China. E é barato. O governo tem realizado campanhas para incentivar os brasileiros a comer peixe, mas deve facilitar o acesso do sector artesanal brasileira para o mercado com o investimento. Se o setor artesanal brasileiro puder acessar o mercado e obter um preço justo para a captura, isso vai ajudar este setor a sobreviver.

ÉPOCA: Em geral, imagina-se que certificação seja um processo caro. Pequenos produtores também conseguem se certificar?
Laurent: Sim, como vemos com a iniciativa do Estado do Rio, os produtores de aquicultura de pequena escala podem obter a certificação com a ajuda financeira do Sebrae e de fundações internacionais. No setor da pesca artesanal, as ONGs brasileiras como a Conservation International e a WWF estão ajudando as pescas de pequena escala para obterem a certificação.

ÉPOCA: Existe algum caso de cooperativa de pesca artesanal certificada?
Laurent: Sim. A WWF está ajudando as cooperativas de pesca de pirarucu a obterem a certificação MSC no Acre. A Fundação Amazonas Sustentável também está ajudando os pescadores da cooperativa Pirarucu na Amazônia (DEVE SER NO ESTADO DO AMAZONAS, NÃO?) a obter a certificação MSC. Na aquicultura, a Coopecon, no sul da Bahia, está ajudando uma cooperativa de tilápia a obter certificação ASC.

ÉPOCA: Qual é o plano para certificar produtos de água doce?
Laurent: O ASC ainda não tem padrões disponíveis para estas grandes espécies brasileiras, como o pintado, tambaqui e pirarucu de viveiro. O ASC planeja que a certificação estará disponível, mas não a tempo para os Jogos Olímpicos.

ÉPOCA: Hoje é muito difícil consumir peixes da Amazônia fora da região. Por quê?
Laurent: Infra-estrutura e logística. A maioria das áreas de pesca e da aquicultura da Amazônia são remotas e não têm acesso a bons frigoríficos que possam comercializar esses produtos. A higiene é um problema, assim como o acesso ao gelo e ao armazenamento refrigerado. A maioria das pessoas não tem acesso ao pirarucu selvagem, o que é uma grande pena, pois é uma peça de peixe extraordinária. Esperamos que o compromisso olímpico aumente a demanda por esses produtos.

ÉPOCA: A certificação ajudaria na cadeia de produção e distribuição dos pescados da Amazônia? Isso aumentaria o valor do produto?
Laurent: Sim, a certificação vai ajudar a aumentar a demanda, especialmente para o pirarucu no mercado de exportação. Se houver demanda, espero que isso torne mais fácil para encontrar investimentos para melhorar a logística local.

ÉPOCA: Como esse trabalho ajudaria na preservação dos recursos naturais da Amazônia?
Laurent: Práticas de pesca sustentáveis dão às comunidades locais um futuro como pescadores. E no futuro estas comunidades não precisão cortar árvores para ganhar a vida. Também lhes dá um futuro financeiro para que a próxima geração não precise deixar suas comunidades e ir para as cidades para ganhar a vida. Aquicultura responsável tem o mesmo efeito. Como eu disse, é muito importante que o governo invista na infra-estrutura local, já que estes peixes precisam ser vendidos em todo Brasil e exportados.

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do-planeta/noticia/2015/08/…

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