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Em 16 anos, poluição do ar matará 256 mil

OESP, Metrópole, p. E6
09 de Ago de 2014

Em 16 anos, poluição do ar matará 256 mil
Projeção feita para SP alerta que 9 mil mortes ocorrerão somente na capital

Adriana Ferraz - O Estado de S. Paulo

A poluição atmosférica vai matar até 256 mil pessoas nos próximos 16 anos no Estado. Nesse período, a concentração de material particulado no ar ainda provocará a internação de 1 milhão de pessoas, e um gasto público estimado em mais de R$ 1,5 bilhão, de acordo com projeção inédita do Instituto Saúde e Sustentabilidade, realizada por pesquisadores da USP. A estimativa prevê que ao menos 25% das mortes, ou 59 mil, ocorram na capital paulista.
Os resultados indicam que, no atual cenário, a poluição pode matar até seis vezes mais do que a aids ou três vezes mais do que acidentes de trânsito e câncer de mama. A população de risco, ou seja, as pessoas que já sofrem com doenças circulatórias, respiratórias e do coração, serão as mais afetadas, assim como crianças com menos de 5 anos que têm infecção nas vias aéreas ou pneumonia.
Entre as causas mais prováveis de mortes provocadas pela poluição, o câncer poderá ser o responsável por quase 30 mil casos até 2030 em todos os municípios de São Paulo. Asma, bronquite e outras doenças respiratórias extremamente agravadas pela poluição podem representar outros 93 mil óbitos, já contando a estimativa de crianças atingidas no período.
Doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras da pesquisa, Evangelina Vormittag afirma que a magnitude dos resultados obtidos pela projeção, que tem como base dados de 2011, comprova a necessidade de o poder público implementar medidas mais rigorosas para o controle da poluição do ar.
Nessa lista estão formas alternativas de energia, incentivo ao transporte não poluente, como bicicleta e ônibus elétrico, redução do número de carros em circulação e obrigatoriedade de veículos a diesel utilizarem filtros em seus escapamentos. O programa de instalação de faixas exclusivas de ônibus e de ciclovias na capital, desenvolvido pelo prefeito Fernando Haddad (PT), é indicado como bom exemplo, ainda que os resultados para a saúde pública não estejam mensurados.

Padrões. A chave para reduzir os efeitos provocados pelo material particulado - nome dado ao conjunto de poluentes soltos no ar, como poeira e fumaça - ainda passa, na análise da professora Evangelina Vormittag, por uma revisão nos padrões adotados pelo governo brasileiro para medir a poluição do ar. "O nosso padrão é baixo em relação ao adotado pelos demais países. É por isso que, constantemente, os índices de qualidade do ar divulgados pelos órgãos ambientais são considerados bons", diz.
Para efeito de comparação, o padrão diário aceito pelo Brasil é de 150 microgramas por metro cúbico. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece índice máximo de 50 microgramas por metro cúbico. "É o triplo, uma diferença muito grande, que precisa ser reduzida", afirma Evangelina. Para a pesquisadora, apesar de ousada, a meta de seguir a recomendação da OMS deve ser almejada. "Temos de estabelecer uma forma de chegar a esse patamar. Para isso, é necessário estabelecer prazos, divididos em etapas." A mudança está em discussão no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Se adotada, não apenas a capital poderia ser beneficiada, mas diversas outras cidades em situação crítica no Estado. Ao contrário do que se imagina, São Paulo não lidera o ranking paulista de poluição atmosférica, segundo levantamento do instituto. O topo da lista é ocupado por Cubatão, seguida por Osasco, Araçatuba, Guarulhos e Paulínia. A capital aparece na 11.ª posição.

'No tempo seco, tenho de mudar minha rotina'

Desde criança, a gestora ambiental Fernanda Uslar, de 31 anos, conhece as regras. Quando o tempo está seco, atividades esportivas ao ar livre ficam vetadas, assim como visitas a regiões com trânsito carregado, como o centro de São Paulo. A ordem é evitar exposição exagerada à poluição, que neste ano já a levou uma vez ao hospital. "Fui internada em maio, com uma crise grave de asma. Não escapei, mesmo cumprindo todas as determinações dos médicos", diz.
A internação deste ano não foi a primeira nem a mais complicada. Em 2010, Fernanda ficou quase um mês internada por causa dos efeitos da poluição. "Estava sem chover, como agora. O resultado foi que meu quadro se agravou muito. Sentia um cansaço enorme, estava sempre ofegante e com dificuldade para respirar. Só a bombinha não dava conta. Tive de tomar cortisona."
O risco é tão alto que, mesmo defendendo o uso do transporte público, Fernanda não anda mais de ônibus nem aceita emprego longe de sua casa, em Santo Amaro, na zona sul. "Vou trabalhar de carro. Não posso ficar exposta no ponto de ônibus."

OESP, 09/08/2014, Metrópole, p. E6

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