VOLTAR

'Eles cansaram de esperar e queriam pressionar Brasília'

Diário Catarinense-Florianópolis-SC
08 de nov de 2004

Sebastião Aparecido Fernandes é funcionário da Funai há 34 anos e já atuou na Amazônia e no Mato Grosso. Ele foi o primeiro administrador da regional de Chapecó, há 20 anos. Seu temor era de que a situação poderia se prolongar. A seguir, alguns trechos da entrevista concedida por Sebastião Fernandes na manhã de ontem, já em sua residência, em Chapecó.

Diário Catarinense - Como foi a rendição?

Sebastião Fernandes - Nós estávamos almoçando na Terra Indígena quando chegou um grupo de índios e disseram que queriam falar conosco. Eu disse que iria terminar de almoçar e eles afirmaram que não tinha mais isso. Tomaram o carro e afirmaram que nós iríamos participar da retomada de uma fazenda. Argumentei que isso era errado e que nós éramos funcionários que trabalham em defesa dos índios. Liguei para Brasília e tentei argumentar com eles.

DC - Houve alguma ameaça?

Fernandes - Não chegaram a nos ameaçar. O momento mais crítico foi quando a liderança perdeu um pouco o controle do grupo. Aí chamei o cacique para que ficasse no local e exercesse sua liderança. A entrada na fazenda foi outro momento de tensão pois tinha medo do conflito. Foi como numa guerra.

DC - Eles tinham claro o motivo de fazer vocês como reféns?

Fernandes - Eles queriam pressionar Brasília. Afirmaram que estavam cansados de esperar e que as coisas só se resolvem com pressão.

DC - Este episódio, como o assassinato do início do ano do fazendeiro Olices Stefani, em Abelardo Luz, indicam um acirramento na disputa por terras?

Fernandes - A situação da terra é muito séria no sul do país e não pode mais ser arrastada. Os governos têm que achar uma solução. No passado foram tituladas terras que eram dos índios. No Rio Grande do Sul a Constituição Estadual já definiu pela indenização das terras dos agricultores que moram em área indígena. Pela Constituição Federal a União só indeniza benfeitorias. E em Santa Catarina temos problemas sérios, como em Ibirama e Arrasai (Saudades), que o governo não está tendo habilidade em tratar a questão.

DC - Que medida pretende tomar em relação ao episódio?

Fernandes - Estou escrevendo um relatório para a Funai pedindo providências. É necessário nomear técnicos com experiência para enfrentar situações como essa. O pessoal de fora às vezes não sabe o risco que a gente corre. Mesmo assim, vou voltar para a aldeia sem medo. Não tenho receio.

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.