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Eleições, meio ambiente e esperança

O Globo - https://oglobo.globo.com/opiniao
Autor: AZEVEDO, Tasso
27 de set de 2018

Eleições, meio ambiente e esperança
Ministério Público Federal criou força-tarefa de procuradores na Amazônia para investigar crimes ambientais, nos moldes da Lava-Jato

TASSO AZEVEDO
27/09/2018 0:00

Em ano de eleição, são comuns as más notícias para o meio ambiente, e em 2018 isso é particularmente cruel. Nas últimas semanas, fomos bombardeados por péssimas novidades. Os números oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ainda não foram divulgados, mas os dados do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD) publicados pelo Imazon (que tem invariavelmente antecipado a tendência) indicam que o desmatamento na Amazônia aumentou 39% entre agosto de 2017 e julho de 2018, em relação ao mesmo período anterior.
Já o Sira-X, programa de monitoramento do Instituto Socioambiental na Bacia do Xingu, detectou dois mil campos de futebol de desmatamento dentro das terras indígenas Apyterewa e Ituna/Itatá, ambas no Pará, no mês de agosto, oito vezes o que havia sido verificado no mês anterior.
Um estudo do Instituto Centro e Vida (ICV) feito com base nos dados oficiais do Estado do Mato Grosso apontou que nada menos do que 98% do desmatamento do Cerrado no estado são ilegais, ou seja, não tinham autorização válida para serem realizados. Imaginava-se que a ilegalidade no Cerrado fosse menor que na Amazônia, mas, pelo jeito, é igual ou pior, pelo menos no Mato Grosso.
A violência contra ativistas ambientais e lideranças comunitárias também aumentou nos últimos três anos. A Global Witness divulgou os dados de assassinatos de ambientalistas no mundo em 2017, e o Brasil novamente lidera a vergonhosa lista, com 57 mortes.
Existe luz no fim do túnel. O Ibama, sem alarde, montou um portal para divulgação das bases de dados de licenciamentos, multas, embargos, guias de transporte de madeira e outros dados fundamentais para monitorar as atividades que podem causar danos ambientais. Seus efeitos logo começarão a serem sentidos. O Ministério Público Federal criou uma força-tarefa de procuradores na Amazônia para investigar crimes ambientais, nos moldes da Lava-Jato. O IBGE divulgou os dados da Pesquisa Agrícola Municipal, que indicam que a valor da produção de açaí - que mantém floresta em pé - ultrapassou os R$ 5 bilhões em 2017, quase um terço do valor da produção nacional de café em grão.
Nas eleições caóticas que se aproximam, podemos ir de um extremo ao outro. Como mostrou estudo do Observatório do Clima, nas candidaturas à Presidência temos num extremo a quase barbárie, com proposta de deixar o Acordo de Paris, desregulamentar o setor ambiental, liberar agrotóxicos na base da canetada e rever todas as áreas protegidas. Do(s) outro(s) lado(s), a proposta de zerar o desmatamento, demarcar todas as terras indígenas, bombar as energias renováveis, promover o mercado de carbono e realizar no Brasil a próxima conferência de clima.
Podemos viver o inferno ou uma revolução sustentável. A resposta estará na urnas em outubro.

Tasso Azevedo é engenheiro florestal

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