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Ele anda sumido

Veja, Ambiente, p. 87
12 de Jan de 2005

Ele anda sumido
Dizimado por um fungo, caranguejo é iguaria cada vez mais rara no cardápio nordestino

Victor Martino

Os turistas que escolheram como destino para as férias de verão o litoral nordestino vêm tendo uma desagradável surpresa à mesa. Nunca foi tão difícil encontrar no cardápio pratos à base de caranguejo, como a moqueca ou a caranguejada, os mais pedidos nos restaurantes do Nordeste. A razão para a escassez da iguaria são as altas taxas de mortandade da espécie uçá, a mais utilizada pelos chefs de cozinha por seu sabor delicado. Na Bahia, onde havia concentração dos crustáceos, um levantamento recente mostrou que pelo menos a metade da população desses caranguejos desapareceu. Na Paraíba, as baixas chegam a 85%. Os cientistas que investigam o sumiço dos caranguejos acreditam que eles estejam sendo vitimados por uma doença causada pela presença de um fungo do filo Azcomycota. A hipótese é baseada no fato de o fungo aparecer no tecido nervoso dos bichos mortos. Alojado no caranguejo, ele limita sua capacidade motora a ponto de impedir que se locomova para procurar comida – e por isso uma parte dos uçás estaria morrendo de fome. Segundo os técnicos, o restante dos caranguejos estaria desaparecendo porque a presença do fungo Azcomycota também enfraquece a capacidade cardíaca dos crustáceos. Por esses sintomas, a enfermidade foi batizada de "doença do caranguejo letárgico". "Tudo indica que o fungo seja a causa do problema", diz Walter Boerger, coordenador da pesquisa feita pela Universidade Federal do Paraná, que será concluída nos próximos meses. Trata-se da mesma doença que, desde o fim do ano passado, também vem exterminando caranguejos no Litoral Sul de São Paulo.
O que permanece ainda como um mistério para os cientistas é a origem dos fungos que estariam dizimando os uçás. Uma equipe do Laboratório de Biotecnologia de Manguezais, da Universidade de São Paulo, trabalha com a hipótese de a doença proliferar nas águas poluídas pelas criações de camarões, vizinhas aos mangues onde vivem os caranguejos. Para os pesquisadores, a maior evidência disso é o fato de a enfermidade dos uçás surgir na rota onde os camarões passaram a ser cultivados. "Os camarões depositam na água fungos, vírus e bactérias presentes no próprio organismo e que são arrastados para o habitat dos uçás", explica o biólogo Clemente Coelho.
Enquanto ainda investigam a doença dos caranguejos, os pesquisadores da Universidade do Paraná tomaram uma medida prática: eles vão iniciar um projeto para repovoar os mangues desérticos com larvas das fêmeas que sobreviveram ao contato com o fungo. Mas, até aparecerem os primeiros resultados, os turistas terão de enfrentar a frustração de ir a restaurantes como o Caranguejo do Sergipe, um dos melhores do ramo em Salvador, e não encontrar o crustáceo no menu. Está em falta cinco dias por mês e, quando aparece no cardápio, custa o dobro na comparação com o verão passado. "Precisamos importar do Pará", explica Nagib Dahia, o proprietário do restaurante.

Veja, 12/01/2005, Ambiente, p. 87

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