OESP, Economia, p. B16
08 de Nov de 2009
Eldorado do potássio atrai Petrobrás à Amazônia
Estatal estuda a volta à mineração para explorar a terceira maior reserva de potássio do mundo
Nicola Pamplona
Enviado especial
Autazes, Amazonas
Considerada a última grande fronteira da exploração de potássio no mundo, a região do encontro entre os rios Madeira e Amazonas será reativada ainda este mês, com o início das perfurações da Potássio do Brasil, empresa de capital canadense. A região, que pode conter a terceira maior reserva mundial do minério, é considerada estratégica pelo governo, que caminha para promover um retorno da Petrobrás à mineração, 20 anos após a extinção da Petromisa, subsidiária que atuava no segmento.
A Potássio do Brasil, que pertence ao grupo financeiro Forbes & Manhattan por meio da mineradora Falcon Metais, conclui os preparativos para a perfuração do primeiro poço na região em quase 30 anos. A ideia é que o poço seja perfurado ainda em novembro, dando início a uma campanha de até 20 poços durante o próximo ano em Autazes e Itapiranga, ao custo de US$ 25 milhões. Se confirmado o potencial da jazida, o investimento pode chegar a US$ 2,5 bilhões, para extração de 2 milhões de toneladas por ano.
A região já foi explorada pela Petrobrás, que identificou a existência de 1,1 bilhão de toneladas na Mina de Fazendinha, no município de Nova Olinda do Norte, mas abandonou o projeto na década de 70. A mina chegou a ser transferida para a Falcon Metais, em processo suspenso no fim do ano passado, em um sinal de que, diante da crescente dependência de potássio, o governo quer maior controle sobre a sua produção. O mineral é usado na produção de fertilizantes.
O Brasil importa hoje 92% do potássio que consome, com um impacto negativo de US$ 3,8 bilhões na balança comercial em 2008. Nos meses anteriores à crise, o preço do produto disparou, passando de US$ 200 por tonelada para perto dos US$ 1 mil. A demora em buscar soluções para reduzir a dependência levou o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, a iniciar uma campanha pública pela retomada das atividades. "O Brasil não tem nenhuma política de exploração de jazidas minerais para fertilizantes", reclamou, recentemente.
A Petrobrás diz que está reavaliando o projeto e não há ainda decisão sobre o futuro da mina. A empresa, porém, já aprovou planos de expansão na área de fertilizantes - com a construção de duas fábricas de amônia e ureia com base no gás natural, dobrando a capacidade nacional - e pode ampliar as atividades para a extração do potássio. Dentro da empresa, há uma corrente que defende o investimento no setor.
A mudança de estratégia em relação aos fertilizantes já começou: a área foi transferida para a Diretoria de gás e Energia, comandada por Graça Foster, mais próxima à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. "A passagem da área para a Graça é um sinal de que o governo quer mais agilidade. O sentimento é que o Brasil precisa de um grande player na exploração do potássio e esse player é a Petrobrás", diz uma fonte com acesso à área energética do governo.
"O preço dos metálicos caiu após a crise, mas o do potássio tende a continuar em patamares elevados", comenta o diretor de Fiscalização do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM), Walter Arcoverde. O DNPM concedeu à Falcon três alvarás de exploração na região do Madeira, que foram transferidos para a nova companhia, a Potássio do Brasil. "A área de fertilizantes é uma das que têm maior potencial de crescimento nos próximos anos", diz o presidente da Falcon, Hélio Diniz.
Canadá e Rússia têm hoje as duas maiores bacias produtoras de potássio, que se equivalem à Bacia Amazônica em termos de extensão territorial. Para o secretário de mineração do Amazonas, Daniel Nava, a região tem potencial para garantir a autossuficiência brasileira em dez anos.
Mesmo que as reservas sejam confirmadas, a produção do mineral na Amazônia não se dará antes de 2015, já que o desenvolvimento de uma mina pode levar de seis a sete anos. No caso de Fazendinha, a produção pode ser atingida um ano mais cedo, uma vez que a fase de exploração já foi concluída.
Mina traz esperança para a cidade de Autazes
Chegada da Potássio do Brasil gera expectativa de criação de empregos na região
Nicola Pamplona, Autazes (AM)
"Peguei uns passageiros aí que falaram que o Lula vai explorar isso antes de sair (do governo). Diz que já tem R$ 1 trilhão reservado", conta o taxista Mário Jorge da Costa, que vive com a família à beira do Rio Madeirinha, braço do Madeira, passagem obrigatória para quem vai de carro de Manaus a Autazes. A expectativa de Mário, bastante otimista, reflete o clima de entusiasmo que tomou conta da cidade após a chegada da primeira equipe da Potássio do Brasil.
Com 31 mil habitantes, Autazes é conhecida pela produção de leite - tem mais de 70 mil cabeças de gado -, mas é crescente o interesse dos moradores pela silvinita, rocha de onde será extraído o cloreto de potássio. "Tomara que melhore a situação, que está meio devagar. Tem muito desemprego aqui", comenta Maria Nazaré da Silva Barbosa, que vive com o marido e dois filhos no barco em que faz transporte de gado, a R$ 130 por viagem.
Ela espera o surgimento de um mercado para transporte de cargas, que aumente o número de viagens, que hoje não chega a uma por dia. A chegada da Potássio do Brasil já mudou a vida de alguns autazenses. O piloto de lancha Raymar Marinho Cabral, por exemplo, trocou uma diária de R$ 20 para fazer a ligação da sede do município com a estrada AM-254 por um salário de R$ 700 por mês para ficar à disposição da empresa para transportar pessoal. "Agora vou conseguir levantar minha casa", comemora ele, que tem dois filhos pequenos.
"Além da geração de empregos, há uma expectativa de receita com ICMS e royalties", diz o prefeito de Autazes, Professor Wanderlan (PMDB). Em um primeiro momento, porém, a única receita será com o ISS sobre os serviços de perfuração, já que o desenvolvimento na mina, se confirmado, pode levar até sete anos.
Estado pode se tornar grande produtor de fertilizantes
Manaus
O governo do Amazonas quer aproveitar o reinício da exploração de potássio na região para tirar do papel o projeto de fazer do Estado um grande polo produtor de fertilizantes. A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa)já tem desenhado o projeto de um grande polo gasoquímico, aproveitando o gás de Urucu, o potássio da foz do Rio Madeira e fosfato do sul da Amazônia, fechando a cadeia de matérias-primas para o setor. O investimento é projetado em pouco mais de US$ 1 bilhão.
O projeto tem sido apresentado em fóruns a possíveis investidores e, segundo o secretário de Mineração do Amazonas, Daniel Nava, já há manifestações de interesse. Do ponto de vista político, o governo argumenta que a produção de fertilizantes em grande escala pode ajudar a reduzir o desmatamento da floresta, pois garante maior produtividade a terras já aradas. "Queremos usar a geodiversidade do Estado para proteger a biodiversidade."
Os fertilizantes são conhecidos pelo nome técnico de NPK, sigla para nitrogênio,potássio e fósforo. O primeiro é extraído do gás natural, que chegou a Manaus, no mês passado, com a inauguração do Gasoduto Coari-Manaus,da Petrobrás,que leva a produção de Urucu à capital do Amazonas. Com a interligação da cidade à Usina de Tucuruí, no Pará, deve haver sobra de parte do gás que seria destinado às usinas térmicas.
A exploração de potássio está sendo retomada às margens do Madeira e o fósforo pode ser achado em Estados vizinhos,como Mato Grosso, Tocantins e Pará, além de Goiás, que já explora o mineral. No primeiro, por exemplo, há grande esforço para viabilizar a exploração de uma jazida na região de Planalto da Serra, cerca de 250 quilômetros ao sul de Cuiabá.
A pesquisa é feita pela Cooperativa dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, que já investiu R$ 3 milhões e espera alguma definição sobre o potencial até o fim do ano. O Brasil importa atualmente metade do consumo interno de fosfato e, para lidar com o problema,o governo criou o Projeto Fosfato Brasil, que investiga reservas do mineral."O potencial é grande do ponto de vista geológico, os ambientes são propícios para exploração, mas existe um longo caminho até se chegar à viabilidade econômica", diz a coordenadora do projeto federal, Maisa Bastos Abram.
O polo gasoquímico projetado pela Suframa prevê de 475 mil a 679 mil toneladas por ano de ureia, que é retirada do gás para produção de fertilizantes, além de outras matérias-primas para a indústria petroquímica." Estamos discutindo com o governo a viabilização dessa indústria, que poderia ser feita em sistema de consórcio, incluindo Petrobrás e investidores privados", diz o secretário.
Os estudos preveem faturamento anual de US$ 1,63 bilhão e geração de 2mil empregos diretos e 35mil indiretos.
N.P. e Venilson Ferreira
OESP, 08/11/2009, Economia, p. B16
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