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El Niño: o mapa do estrago

Veja, p. 80-81
27 de Abr de 2016

El Niño: o mapa do estrago
Levantamento da ONG ActionAid, obtido por VEJA, aponta as consequências mais drásticas da passagem do fenômeno climático iniciada em 2015 e que termina em maio

RAQUEL BEER

Quando o sol se põe, a somali Malyuun Ahmed Omer, de 30 anos, tem uma tarefa dolorosa para qualquer mãe: pôr cinco de seus oito filhos para dormir, sem jantar, com fome. Os outros três tiveram de ser escolhidos para morar com parentes, onde são alimentados. A falta de comida no norte da Somália é consequência da seca que atinge o país desde o ano passado, em mais um efeito negativo das alterações climáticas que se espalharam pelo planeta (veja ao lado) em razão do fenômeno do El Nino, que só agora perde força - a expectativa é que se encerre a partir do próximo mês. A família de Malyuun não estava acostumada à escassez: a seca destruiu duas colheitas e matou 25 ovelhas de sua fazenda. Infelizmente, não é um caso isolado: há 4,7 milhões de somalis que enfrentam escassez de alimentos em decorrência direta do El Nino. O fenômeno - caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pelo enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram perto da superfície dos mares - bagunçou os padrões climáticos globais. Contudo, foi na África, continente mais vulnerável a esses eventos extremos, que causou maiores estragos.
A ONG ActionAid, presente em 45 países, realizou um levantamento das consequências do El Nino nos territórios africanos, obtido com exclusividade no Brasil por VEJA. No Zímbábue, por exemplo, falta alimento a 2,8 milhões de pessoas (o equivalente à população de Paris) e 33 000 crianças necessitam de tratamento para desnutrição grave. No Malaui, 47% dos menores de 5 anos estão desnutridos e 2,8 milhões de indivíduos precisam de assistência alimentar, em 25 distritos. A ActionAid trabalha justamente para levar carregamentos de comida a esses necessitados (a família de Malyuun Ahmed Omer será uma das 30000 atendidas na Somália e na Etiópia). O cenário africano sempre foi delicado, mesmo fora da época de El Nino, dada a precária infraestrutura dos países. Os alarmantes números aqui mencionados se referem apenas às nações afetadas diretamente pelas secas ocorridas por efeito das alterações climáticas abruptas que tomaram a Terra desde 2015.
O aporte dado por ONGs como a sul- africana ActionAid é obviamente muito oportuno, mas paliativo. "Para construirmos resiliência a longo prazo, temos de promover a implementação de técnicas agrícolas modernas, que melhorem a saúde do solo, a capacidade de retenção de água e a diversidade de culturas de maior tolerância às secas nas plantações'', diz o cientista político Richard Miller. diretor da entidade. "Para piorar o cenário, as mudanças climáticas, que já vinham causando secas e enchentes severas, somaram-se ao El Niño, tornando-o ainda mais impactante."

Veja, 27/04/2016, p. 80-81

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