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Educação indígena perde antropóloga

Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: MARILENA FREITAS
16 de Jul de 2003

O corpo foi velado no auditório da UFRR e transladado para Manaus (AM)

A antropóloga Maria Auxiliadora de Souza, 40 anos, morreu ontem, às 7h30, vítima de infarto, no Hospital Geral de Roraima (HGR). A morte comoveu além da família, colegas de profissão, alunos e vários indígenas.

Abalado com a morte, o marido Zé Adalberto disse que vai entrar com uma representação contra os médicos que a atenderam no Pronto Socorro. Zé Adalberto foi coordenador do CIR (Conselho Indígena de Roraima), é suplente da Câmara dos Deputados.

Maria Auxiliadora era professora do curso de Antropologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e antes de morrer pediu para o marido denunciar à Folha o mau atendimento médico, mas não houve tempo. Para Adalberto, a morte ocorreu por falta de um tratamento mais adequado, que diagnosticasse com antecedência o problema.

"Se ela estava com dengue e retornou com dor no peito, os médicos deveriam ter pedido outros exames para saber qual era o problema. Pelo contrário, passaram remédio e depois de algumas horas numa cadeira, porque não havia leito, foi mandada embora", contou o marido, ao dizer que no domingo ela retornou duas vezes no PS e apenas o exame de urina foi requisitado.

Por causa do mau atendimento, Adalberto disse que a levou no domingo ao Hospital da Mulher. "Quando chegamos lá, o médico disse que era caso de UTI", contou, ao dizer que, além da dor no peito, havia falta de ar e vômito.

"O que me deixa indignado é saber que as pessoas só são atendidas na hora se tiverem influência. A Auxiliadora foi atendida porque uns amigos médicos foram lá. Se não tiver pessoas conhecidas, morre-se à míngua", desabafou, ao ressaltar que UTI estava lotada.

Zé Adalberto criticou o Governo do Estado de não dar a devida atenção à rede pública de saúde, e o Ministério Público Estadual (MPE), por não assumir com maior austeridade o papel de fiscalizador para que a coletividade tenha resultados positivos e seja bem atendida.

"É preciso se tomar providências porque todos os servidores atendem mau a população. São agricultores que ficam jogados à míngua, sem assistência. O Ministério Público e o governo precisam impedir que médicos pagos com dinheiro público atendam mau e aproveitem o momento de dor para atender particular, nos seus consultórios", acrescentou.

HISTÓRICO - Maria Auxiliadora é uma das fundadoras do projeto Insikiran - Curso de formação superior para professores indígenas - , além de ter participado dos projetos relacionados com a questão indígena. "Ela lutou muito para que os índios tivessem educação diferenciada como determina a Constituição. Conseguiu aglutinar grupos e pessoas que não defendiam a causa", disse a professora Ise de Gorethe.

A morte é classificada pelos acadêmicos de Antropologia como uma grande perda para a universidade e o conhecimento. Ressaltaram que ela era uma das poucas professoras dedicadas.

ENTERRO - Antes de o corpo ser transladado para Manaus (AM), onde ela nasceu, houve o ritual Maruai (defumação) de pajelança, além de muitos cânticos na língua Macuxi. Uma caravana com 16 pessoas acompanhou o translado.
Na próxima sexta-feira, a Coordenação de Ciências Sociais fará no final da tarde, uma homenagem póstuma à professora Auxiliadora, que deixou uma filha com 5 anos e mais duas sobrinhas que criava.

HOSPITAL - A Folha procurou a Assessoria de Comunicação do PS para saber a posição da direção e dos médicos que atenderam Auxiliadora. A assessora Shirleide Vasconcelos informou que a direção se pronunciará hoje.

EXAMES - Apesar de não apresentar qualquer sintoma, os médicos colheram amostra de sangue da professora Maria Auxiliadora para saber se a causa morte foi dengue hemorrágica, já que ela estava com dengue. Com a morte da antropóloga, veio à tona a suspeita de surgimento de dengue hemorrágica em Roraima. Esse é o segundo caso a ser confirmado.

Segundo o infectologista Mauro Asato, a dengue hemorrágica é o tipo mais complicado da doença e só pode ser confirmada depois de diagnóstico laboratorial que demora de 10 a 45 dias. Para a confirmar o caso, coleta-se amostra de sangue do paciente e envia para o Laboratório Central (Lacen) e Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA).

Conforme o infectologista, pode ter a doença quem já contraiu outros tipos de dengue. Em Roraima circula as dos tipos 1, 2, 3 e 4. Na década de 80 foi constatada a presença do último vetor.

Os sintomas da dengue hemorrágica são: sangramento e queda da pressão arterial. "Qualquer pessoa que estiver com dengue tem risco mínimo de contrair a hemorrágica e quem já teve outras sorologias da doença tem risco acima de um por cento de se transformar em hemorrágica", disse Asato.

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