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Autor: Neide Esterci
06 de Fev de 2004
A Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) e o ISA (Instituto Socioambiental) foram anfitriões de um seminário de cinco dias, na cidade de S. Gabriel da Cachoeira (AM), para intercâmbio de experiências inovadoras em educação indígena implantadas numa vasta região do noroeste amazônico que abrange Brasil, Colômbia e Venezuela. O evento foi organizado pela Foirn, ISA, Fundación Etnollano (Colômbia), Fundación Gaia (Colômbia), Organización de Pueblos Indígenas del Amazonas (Venezuela), Zona Educativa estado Amazonas (Venezuela).
A oportunidade de troca de experiências faz parte da agenda da Canoa - Cooperação e Articulação do Noroeste Amazônico - uma rede que integra Ongs e organizações indígenas dos três países, com a perspectiva de promover processos de discussão, monitoramento e avaliação de projetos em comunidades indígenas nas áreas de saúde, educação e atividades produtivas. "Temos direitos que são próprios mas que também são universais", explica André Fernando, da etnia Baniwa do lado brasileiro. "Este encontro da Canoa permite a gente ver como nossos companheiros trabalham isso na comunidade deles, na escola deles, com os governos deles".
Iniciado no dia 1o de fevereiro, na maloca da Foirn, com a presença de representantes de instituições locais, como a prefeitura de S. Gabriel, a Polícia Federal, o 5o Batalhão de Infantaria da Selva, a Igreja Católica e a Fundação Nacional do Índio (Funai), o encontro colocou em debate quatro temas tidos como estratégicos para a organização de um sistema de educação adequado aos interesses dos povos indígenas - políticas lingüísticas, projetos políticos pedagógicos (ou orientações curriculares como denominam os países vizinhos), o uso dos conhecimentos tradicionais no espaço da escola e a implementação dessas concepções pelas políticas públicas.
No dia 5 de fevereiro, quando o evento foi encerrado, cerca de 50 pessoas entre professores indígenas, diretores de associações de escolas indígenas, lideranças, falantes de diversas línguas, puderam relatar e ouvir experiências inovadoras das escolas Baniwa e Coripaco (no Alto Rio Içana/Brasil), Tuyuka (no Alto Rio Tiquié/Brasil), Tukano (no Médio Rio Tiquié/Brasil), Wanano (no Alto Rio Uaupés/Brasil), Tariano (no Alto Rio Uaupés); do povo Yekuana da Venezuela, do setor de educação da organização indígena ORPIA (Organização dos Povos Indígenas do Amazonas) da Venezuela, dos Curripaco e Nheengatu/Baré da Colômbia e Venezuela.
Valorização da língua, da cultura e da identidade
Nos relatos e discussões, as preocupações eram a valorização da língua, da cultura tradicional e da identidade de cada povo e, para esses fins, eram discutidas a criação e experimentação de instrumentos pedagógicos. A atenção com os jovens e as crianças permeou todo o encontro e era freqüente a referência aos velhos e aos mestres como guardiães das histórias e das "artes ligadas à vida", nas palavras do professor Irineu Rodrigues Baniwa. Nos intervalos, alguns falavam do tempo em que eram castigados nas escolas ou reprimidos por falarem sua própria língua em público.
Outro ponto relevante foi a discussão sobre as dificuldades face às leis e às autoridades não-indígenas ligadas às agências governamentais - distância entre as leis e sua implementação; entre as declarações das autoridades e a efetividade das medidas por eles tomadas. Palavras que são "letras mortas", como define o professor Higino Tenório Tuyuka, referindo-se ao descompasso entre o que ouve dos representantes dos poderes públicos e o que vê aplicado em sua comunidade.
Finalmente, os participantes enfrentaram a questão delicada das dificuldades encontradas nas próprias comunidades - face ao conflito entre uma orientação mais voltada para a absorção pura e simples da cultura dos brancos e uma orientação mais respeitosa com relação às raízes de sua própria tradição
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