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A economia no alvo dos movimentos sociais

JB, País, p. A2
24 de Nov de 2004

A economia dos movimentos sociais
Conferência Terra e Água recebe Lula e cobra demissão de Palocci

Hugo Marques

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai encontrar movimentos sociais em clima de revolta na Conferência Nacional Terra e Água, que reúne 5 mil participantes em Brasília. Lula tem discurso marcado para hoje no evento, que aprofunda o ataque à política econômica do governo e pede a demissão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
Em meio a cartazes de Lênin, Engels, Mao-Tsé Tung e Che Guevara, um dos coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, anunciou ontem que vai intensificar a luta urbana de 44 movimentos sociais contra a condução da macroeconomia.
Os primeiros alvos dos manifestantes serão os prédios do Banco Central, na quinta-feira, onde vão protestar contra a política conduzida por Palocci.
- Queremos dizer para o presidente que nós, do campo, estamos muito insatisfeitos com esta política econômica do Palocci e queremos a demissão dele, sim. Caso contrário, não vai haver reforma agrária nesse país - cobrou João Paulo, sob aplausos.
A conferência tem patrocínio dos ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Meio Ambiente, do Banco Popular do Brasil e da Caixa Econômica Federal - instituições oficiais subordinadas ao Ministério da Fazenda - além de várias empresas estatais, entre elas Petrobras. 0 ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, foi à abertura da conferência para anunciar o apoio do governo à luta dos movimentos sociais.
- 0 país que estamos construindo não enxerga nos movimentos sociais, nos lutadores e nas lutadoras da Justiça, adversários de um processo de mudança. Vocês são aliados fundamentais numa agenda de mudanças que queremos para um Brasil novo - anunciou Rossetto.
Após ser recebido ao som de "Para não dizer que não falei das flores", Rossetto inicialmente recebeu vaias de uma parcela de trabalhadores rurais, que depois o aplaudiu. Era um protesto pelas cinco mortes de sem-terra em Felisburgo (MG), no sábado, e pela falta de cumprimento da meta da reforma agrária. João Paulo não sabe se os manifestantes da conferência vão à sede do Banco Central em Brasília, mas anunciou que os protestos de quinta-feira devem ser realizados em todas as capitais onde o BC tem prédios, exemplo de Rio e São Paulo. A luta uni ficada dos movimentos sociais, diz o líder do MST, é contra o modelo econômico. João Paulo prevê mais conflitos no campo se não sair a reforma agrária.
- 0 não cumpri-, mento da meta terá conseqüência: o conflito da terra - ameaçou o líder do MST
Lula vai encontrar hoje na conferência faixas de protesto contra a política econômica, com dizeres como "Queremos comer o superávit primário", ou "Fora superávit primário". Há também
faixa de protesto contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Uma diz: "Meirelles, volte para Boston".
João Paulo afirmou que o MST vai continuar com as invasões de terra enquanto não for feita uma reforma agrária em larga escala. 0 líder do MST anunciou que os manifestantes do movimento em Felisburgo vão invadir por tempo indeterminado a - fazenda onde cinco trabalhadores sem-terra foram assassinados no sábado:
- Nosso povo não tem medo do de jagunços armados, de gigolôs de vacas.
Rosseto não foi a única' autoridade do governo a prestar apoio aos sem-terra. 0 secretário de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, foi ao evento representando a ministra Marina Silva.
Capobianco criticou a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) de liberar algodão transgênico.

JB, 24/11/2004, País, p. A2

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