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Ecomodernistas em movimento

Valor Econômico, Sociedade, p. 8
12 de Jun de 2015

Ecomodernistas em movimento

Martha San Juan França

Os 18 autores do manifesto não negam os problemas causados pelo homem ao planeta, mas defendem que, quaisquer que sejam esses danos, a tecnologia humana e a engenhosidade vão transcendê-los.
Um documento divulgado por 18 ativistas e acadêmicos de cinco países promete intensificar o debate sobre os métodos de mobilização do ambientalismo tradicional em face dos desafios do desenvolvimento sustentado e do pouco sucesso alcançado até agora nos acordos internacionais sobre mudanças climáticas e defesa da biodiversidade. O chamado Manifesto Ecomodernista considera que a retórica da sustentabilidade, apesar de alguns projetos promissores, pode ter o efeito contrário e não só desmobilizar as pessoas como aumentar a crise ecológica.
Sob o guarda-chuva do Breakthrough Institute, um "think-tank" fundado na Califórnia por Michael Shellenberger e Ted Nordhaus, consultores com passado no ativismo ambiental, os autores do manifesto não negam os problemas causados pelo homem ao planeta, mas defendem que, quaisquer que sejam esses danos, a tecnologia humana e a engenhosidade vão transcendê-los. Para esses novos verdes, a receita para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, poupar a natureza e combater a desigualdade social é justamente "intensificar as atividades humanas-particularmente a urbanização, a agricultura intensiva, o uso de energia elétrica/nuclear e o reflorestamento-e, assim, reduzir as demandas sobre a natureza e o uso da terra".
Ao contrário dos ambientalistas tradicionais, os ecomodernistas se caracterizam pela sua crença de que a tecnologia pode ser aproveitada para melhorar a qualidade de vida das pessoas e para conservar o ambiente. Eles não se opõem à agricultura de grande escala, com fertilizantes e técnicas de produção moderna, que usam menos terra e água, e acreditam que a energia nuclear é necessária para enfrentar as mudanças climáticas. "Muito do que hoje é chamado de desenvolvimento sustentado na realidade é danoso para o ambiente", diz Shellenberger em entrevista ao Valor. "A vida no campo e muitas formas de energias renováveis requerem mais terra, florestas e recursos e deixam menos espaço para a conservação da natureza."
"A emergência da questão ambiental é clara e exige novo modelo e nova forma de engajamento da sociedade", afirma Carlos Rittl
O documento ecomodernista reconhece que o desenvolvimento material se deu à custa dos recursos naturais, mas enfatiza que o progresso da humanidade nos últimos séculos (aumento da esperança de vida, redução da mortalidade, defesa dos direitos humanos) não deve ser menosprezado. Seus autores estão convencidos de que, se forem invertidas algumas tendências do passado, em particular o descolamento do desenvolvimento humano dos impactos sobre o planeta, será possível reduzir a dependência do homem sobre a natureza. A resposta, segundo eles, não é mudar de rumo, "mas abraçar a engenhosidade humana, a tecnologia e o processo de modernização".
O manifesto traz um evidente contraste com a visão sombria frequentemente associada a ambientalistas e cientistas do clima, diz a respeitada revista científica "Nature" em editorial sobre o tema.
De fato, "embora o movimento ambientalista seja muito heterogêneo, existe uma certa lógica que norteia seus seguidores", afirma o sociólogo Eduardo Viola, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). "Todas as correntes partem da premissa de que os problemas ambientais são extremamente sérios, mas apresentam abordagens mais ou menos radicais para tentar mitigá-los."
Existem aqueles que partem do pressuposto de que o sistema econômico predominante e o consumismo das sociedades atuais são incompatíveis com a desaceleração das emissões de carbono e a manutenção dos recursos naturais e temem suas implicações sobre que tipo de futuro a humanidade vai enfrentar. "Está claro que os métodos tradicionais do ambientalismo são inadequados ou mal conduzidos em face da ameaça do aquecimento global", afirma o australiano Clive Hamilton, autor do livro "Requiem for a Species", talvez o maior crítico dos que dizem que a crise ecológica atual não é tão ruim quanto os cientistas afirmam.
Os defensores do manifesto, em contrapartida, estão convencidos de que é possível promover um "bom antropoceno", referindo-se ao termo cunhado em 2000 pelo Prêmio Nobel de Química Paul Crutzen, ao afirmar que o planeta passa por uma nova época geológica, ou "Idade do Homem", que viria suceder o holoceno, no qual vivemos há quase 12 mil anos, desde o fim da última era glacial. Nesse período "a marca humana sobre o ambiente tornou-se tão grande e ativa que rivaliza com algumas das grandes forças da natureza em seu impacto sobre o funcionamento do sistema Terra", diz Crutzen.
Os ecomodernistas não negam que a Terra foi remodelada pelos humanos, mas estão convictos de que "o conhecimento e a tecnologia aplicados com sabedoria podem dar origem a um bom e até grande antropoceno". Mas para os ativistas radicais é muito tarde para voltar atrás e reverter o desequilíbrio no sistema climático da Terra. Em outras palavras, a meta de conter o aquecimento global a um acréscimo menor que 2o C -o limite que se convencionou chamar de perigoso para o planeta -não é mais possível.
"Ninguém gosta de encarar uma situação dessas", afirma a filósofa Deborah Danowski, autora com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro do livro "Há Mundo por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins". "As pessoas querem ouvir discursos otimistas, mas acontece que não está tudo bem. Isso não significa adotar uma posição fatalista, mas reconhecer que a tarefa de enfrentar essa situação é urgente e imperativa."
Enfrentar a situação, para esses ativistas, é combater a campanha negacionista, na qual eles inserem os céticos do aquecimento global, os lobbies a favor dos combustíveis fósseis e as manifestações em defesa do que chamam tecnofetichismo. Tendo em vista a inabilidade dos sistemas políticos e sociais de pôr em prática medidas que contenham as emissões de carbono que causam as mudanças climáticas, eles defendem atitudes mais confrontadoras. "A humanidade já mudou o planeta de forma irrevogável", disse Hamilton ao Valor.
"A vida no campo e formas de renováveis requerem mais terra e recursos e deixam menos espaço para a conservação", diz Shellenberger
"Essa é a definição do antropoceno." Agora, temos que decidir de que lado estamos. "Vamos atrás das ambições de Prometeu e arriscar uma reação catastrófica ou caminhar de forma cuidadosa e comedida? No momento, os adeptos de Prometeu levam vantagem porque são eles que dão as cartas na política, na economia e no desenvolvimento tecnológico."
Ao lado desses ambientalistas mais radicais, existe uma corrente majoritária que não nega a gravidade da atual crise ecológica, mas acredita que é possível uma reforma dentro do sistema para transformá-lo. Essa corrente, na qual se inserem figuras de peso como o ex-vice-presidente americano Al Gore e o economista Nicholas Stern, para citar os mais conhecidos, luta para diminuir os estragos feitos pelo homem no planeta por meio de mecanismos de mercado. Eles defendem que é possível fazer a transição para o capitalismo de baixo carbono por meio de reformas significativas no sistema econômico, social, energético e de governança global.
"Apesar de todas as dificuldades de negociação internacional, do grau de frustração alto, a emergência da questão ambiental é bem clara e exige novo modelo e nova forma de engajamento da sociedade nos compromissos de governança", afirma Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, grupo de ONGs e movimentos sociais. "O problema não se refere mais ao futuro, mas está presente no nosso dia a dia e exige um repensar sobre todos os nossos grandes planos e investimentos visando à convergência entre a agenda do clima e dos objetivos do desenvolvimento sustentável."
Para Pedro Jacobi, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP e membro do conselho do Greenpeace, o movimento ambientalista busca respostas às questões mais urgentes, mas também tem uma perspectiva mais ampla. "Há que se questionar o comportamento dos Estados e governos muitas vezes omissos e irresponsáveis, mas também ampliar a compreensão dos cidadãos sobre os limites do planeta e sua responsabilidade quanto ao futuro", diz. "As grandes mudanças não ocorrem de uma hora para a outra devido ao progresso tecnológico, mas pela revisão de hábitos e práticas, pela discussão ao longo dos anos e pelo fortalecimento das práticas educativas."
Embora discordem de muitos pontos do manifesto ecomodernista, os teóricos do movimento ambientalista brasileiro consideram que o debate é benéfico ao chamar a atenção sobre o caráter contraditório da capacidade humana de destruição, mas também de construção. "Existe uma parte desse movimento e alguns cientistas que acabam adotando uma postura anti-inovação, como se fosse possível repor as condições do holoceno", afirma José Eli da Veiga, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP. "Entendo de outra maneira. As mudanças climáticas são parte de um conjunto de riscos produzidos pelo processo de avanço científico e tecnológico diferente dos riscos das sociedades pré-industriais e, portanto, requerem respostas novas."
Para um dos pioneiros da área de história ambiental no Brasil, José Augusto de Pádua, coordenador do Laboratório de História e Ecologia da UFRJ, é importante superar "a maldição quase metafísica" que alguns ambientalistas têm de que tudo relacionado à modernidade é negativo, homogeneizante e destrutivo do mundo natural. "A situação atual é parte da história, com pontos positivos e negativos. A diferença é que a mudança de escala trouxe riscos inéditos à espécie humana. Em um planeta com 7 a 9 bilhões de habitantes e com a velocidade de transformação atual, não há caminho de retorno."
"As pessoas querem ouvir discursos otimistas, mas acontece que não está tudo bem", afirma a filósofa Deborah Danowski
Outra questão, segundo Pádua, é que existe uma concepção arraigada de que os mundos pré-modernos são melhores do ponto de vista ambiental do que o atual. "O mundo pré-moderno é muito diversificado e a utopia saudosista permite um caráter homogêneo do passado que não corresponde à realidade", observa. "É importante ver as coisas em movimento e considerar o passado e também o futuro de uma perspectiva mais ampla." Nesse sentido, ele lembra que, embora a mensagem ecomodernista seja importante, é preciso diferenciar a relevância dessa discussão sobre modernidade e ambientalismo da iniciativa específica do grupo que subscreve o manifesto.
Em outras palavras, estar aberto à modernidade não significa, segundo Pádua, ter a visão otimista dos ecomodernistas de que o antropoceno é uma época geológica plena de oportunidades para melhorar a condição da humanidade e reduzir a pressão ecológica sobre o planeta. A questão é bem mais complexa. Ou como diz a revista "Nature", "desenvolvimento sustentável é um bordão que define claramente o que o mundo deve conseguir alcançar, mas ninguém sabe exatamente como isso seria em escala total".

Valor Econômico, 12/06/2015, Sociedade, p. 8

http://www.valor.com.br/cultura/4090322/ecomodernistas-em-movimento

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