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É preciso saber o que se pode perder

OESP, Vida, p. A13
Autor: MEER, Piet van der
13 de Mar de 2006

'É preciso saber o que se pode perder'
Cientista holandês diz que países podem deixar de ganhar ao proibirem produtos geneticamente modificados

Entrevista : Piet van der Meer: Coordenador da Fundação para Pesquisa Pública e Regulação

Cristina Amorim

A Fundação para Pesquisa Pública e Regulação (PRRI, na sigla em inglês), organização lobistas de pesquisadores de institutos públicos de diversos países, quer mudar o Protocolo de Cartagena para facilitar o trânsito dos produtos geneticamente modificados que eles desenvolvem. O grupo tentará influenciar o andamento dos debates na Reunião das Partes do protoloco (MOP-3), que começa hoje.
"Se há uma avaliação de risco consistente, ela deve ser suficiente. Quem trabalha com orçamento público não pode perder tempo e dinheiro respondendo perguntas que não são essenciais", diz Piet van der Meer, coordenador da PRRI. "Não é possível usar o mesmo procedimento rígido válido para produtos com grande aplicação comercial quando vamos testar em campo."
Formado em Microbiologia e Direito, Meer é ex-membro da delegação holandesa na Convenção de Diversidade Biológica. A seguir, a entrevista concedida ao Estado .
Como cientistas públicos podem influenciar o texto do protocolo, já bastante adiantado?
O protocolo é apenas um esqueleto e muita coisa precisa ser trabalhada. Os problemas foram empurrados para o futuro. O texto diz: "ainda precisamos fazer isto e as partes devem decidir aquilo em dois anos". Os cientistas acham que falta ciência nos processos. Quando eu era negociador (da Holanda) , eu sentia isso e os procurava. Só que estavam muito centrados nas pesquisas para sair do laboratório. Agora, eles sentiram que precisam participar das negociações.
Em que sentido falta ciência?
Há muitos conceitos errados sobre organismos geneticamente modificados, como se fossem a coisa mais perigosa do mundo. Há muitos fatos não conhecidos porque a discussão ficou centrada em commodities. A pesquisa pública tenta usar a biotecnologia para melhorar a vida das pessoas, mas fica comprometida por causa do controle. Cabem níveis diferentes para cada uso e cada origem de OGM.
É o caso do uso de "pode conter" ou "contém" OGM?
Isso é só uma questão semântica. O receptor quer saber o que está dentro do container. No caso da pesquisa pública, o problema é outro. Se eu trabalho com uma semente modificada, preciso obter uma permissão para testá-la em campo. Só que, como muitos países ainda não têm regras de biossegurança, é comum fazerem mais perguntas só para ganhar tempo. Nem sempre cientistas têm tempo e dinheiro para perder.
O governo tem o direito de questionar.
Sim, se um determinado país não quer organismos modificados, pode falar. Mas precisa estar ciente das conseqüências. Um exemplo é o melhoramento da produção de alimentos. É preciso saber o que se pode perder ou ganhar.

Entrevista : Piet van der Meer: Coordenador da Fundação para Pesquisa Pública e Regulação

OESP, 13/03/2006, Vida, p. A13

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