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É a Pequena quem manda

O Povo-Fortaleza-CE
Autor: Debora Dias
06 de mar de 2002

A história da vida de Maria de Lourdes da Conceição Alves, 56 anos, se confunde com o movimento de organização dos índios Jenipapo-Kanindé. Seu nome indígena é Tigresa, mas desde criança todos a chamam de Pequena. Essa ''pequena, grande, poderosa'', como as pessoas costumam dizer, rompeu com um costume ainda hoje presente nos índios cearenses. A designação só de homens para a função de cacique.

Em 1995, os índios Jenipapo-Kanindé estavam lutando pelo seu reconhecimento pela Funai. O antigo cacique havia morrido há três anos e uma mulher se destacava no trabalho da Associação Comunitária de Trairrussú e na defesa da causa indígena. Foi o que levou a aldeia escolher Pequena como sua representante máxima.

Ela conta que os índios da tribo a colocaram no centro de uma roda. Os mais velhos disseram que ela tinha voz, eco, garra e força para ser a cacique da aldeia. No início, ela não queria aceitar o cargo. ''Dei um grito dizendo que não, não podia''. Mas depois resolveu ceder à vontade do grupo: ''Tupã me consagrou'', diz.

Em menos de um mês estava em Minas Gerais para discutir o Estatuto do Índio. Eram 39 caciques de todo o País e só ela de mulher. Chamou a atenção. ''Não entendia nada, não tinha experiência, estava com o rabo entre as pernas'', relembra a cacique. De lá seguiu para Brasília para pressionar a aprovação do estatuto. ''O governo de FHC não recebeu ninguém'', diz Pequena.

Cacique Pequena é casada com Antônio Alves, com quem teve seus 16 filhos. ''Com 16 anos tive o primeiro e só parei de ter aos 49 anos. Desses, 13 tive em casa. Só com os mais novos é que fui para a maternidade'', revela Tigresa.

''É Deus no céu e os índios na terra'', conta Pequena a doutrina que diz seguir. Ela acredita vai que ver a terra dos índios Jenipapo libertada como era antes. ''Não tem quem possa com Tupã'', avisa.

Mas além de seus sonhos coletivos, Maria de Lourdes tem desejos pessoais. ''Queria levantar uma casa boa para morar com minha família, com um carro na porta e conhecer o Gugu (apresentador de televisão)'. Declaradamente fã do cantor Amado Batista, lamenta nunca ter podido vê-lo pessoalmente. ''Queria também poder gravar um CD'', revela.

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