Veja, Entrevista, p. 17-19
Autor: KLABIN, Israel
23 de Mai de 2012
"É o momento certo para mudar"
Um dos pioneiros no debate sobre a questão ambiental no Brasil diz que a Rio+20 pode ser uma oportunidade para promover o inadiável casamento entre economia e sustentabilidade
Entrevista: Israel Klabin
Gabriele Jimenez
Aos 30 anos, com o pai doente, o carioca Israel Klabin assumiu o comando da empresa que leva seu sobrenome, gigante da indústria de papel e celulose fundada em 1899. Assim que pôde, porém, abriu mão da participação no dia a dia da companhia, da qual atualmente só integra o conselho, sendo representado na função pelo filho. Com uma passagem-relâmpago pela política - em 1979 foi prefeito do Rio de Janeiro -, há quase três décadas ele se dedica, em tempo integral, às questões do meio ambiente. "Nunca quis realmente ser empresário", diz. Aos 85 anos, Klabin continua tão ativo na defesa do meio ambiente quanto nas competições de regata, esporte que pratica desde a juventude. Autor de A Urgência do Presente - Biografia da Crise Ambiental, lançado no ano passado, ele se diz otimista com o futuro e acredita que a Rio+ 20 pode, sim, trazer resultados concretos.
Boa parte dos compromissos firmados na Eco 92 não foi levada adiante. Como fazer para que isso não se repita na Rio+2O?
Quero deixar claro que a Eco 92 foi a mais relevante reunião já ocorrida para discutir a questão ambiental. Todos os chefes de estado estiveram presentes e discutiu-se um pensamento novo, que não ameaçava ninguém e prometia muito. As conversas transcorreram em nível elevado, mas emperraram na hora da execução por um problema fundamental. O modelo atual de gestão dos governos e órgãos decisórios estava e permanece ultrapassado. Isso impede que se ponham em prática todos os grandes projetos. É preciso modernizar as Nações Unidas e todos os instrumentos sob seu guarda-chuva, onde, nas votações, os interesses nacionais muitas vezes se sobrepõem aos internacionais.
Isso quer dizer que não devemos ter muitas expectativas em relação à Rio+2O?
Veja, a Rio+20 não é uma reunião de tomada de decisões. É um encontro para a formulação de uma nova maneira de pensar o desenvolvimento. Isso me agrada bastante, apesar de muitos acharem que não levará a nada. É preciso ter em mente que nunca vamos conseguir tudo, mas pela primeira vez percebo que estamos saindo da esfera de discussão sobre os efeitos e caminhando para a discussão sobre as causas do problema, com o modelo econômico e político de um lado e a inclusão social do outro. Isso seguramente será discutido na conferência. Sem dúvida, é um avanço. Se teremos apenas mais uma declaração ou caminharemos para a mudança efetiva das políticas públicas, isso é outra questão.
O Brasil e os outros emergentes podem ser os protagonistas na defesa da causa ambiental?
Sem dúvida. Nós não estamos congelados nem fossilizados em modelos políticos e econômicos, como os países desenvolvidos. Estamos num caminho de transição, que seguramente permite rápida adaptação a uma nova economia, a novas relações de troca e até a novas moedas. A China é um problema, pois lá existe um conflito entre o modelo de governo e o modelo econômico. Mas, em geral, os emergentes têm mais condições de assumir a liderança na defesa de um mundo mais sustentável.
É possível haver avanços significativos sem a cooperação dos Estados Unidos?
Acho difícil. Aos Estados Unidos, um grande produtor, consumidor e detentor do poder da indústria de energia fóssil, cabe investir pesadamente em inovação. Se eles conseguissem inovar em termos de acesso a energias limpas, o mundo seria completamente diferente. Há muitos parlamentares americanos com quem já conversei que têm posições claramente favoráveis a adaptações da economia às questões ambientais. No entanto, quando a discussão se torna política, eles são impedidos de promover mudanças pela reação dos blocos parlamentares mais arrasados.
O senhor é um ambientalista de primeira geração. Como vê o avanço dessa questão?
Ela caminhou bastante. Primeiramente, uma série de métodos e sistemas aplicados em outras áreas passou a ser uma ferramenta a serviço também da sustentabilidade, o que não ocorria. O exemplo mais marcante foi o Protocolo de Kyoto, que estabeleceu um sistema de "pagamentos" por parte dos poluidores pela emissão de carbono. Houve ainda o aperfeiçoamento dos modelos de produção. A evolução talvez mais relevante ocorreu na opinião pública, que se tomou uma plataforma de combate fundamental na formulação de todas as políticas públicas presentes e futuras. Finalmente, registraram-se progressos específicos importantes nas tecnologias com impacto benéfico sobre a preservação ambiental.
A preservação do meio ambiente está bastante disseminada em bairros, cidades, estados. Pode chegar o dia em que ela prescinda de ações do governo central?
A evolução se dará de cima para baixo e de baixo para cima, simultaneamente. Quando comecei a trabalhar com meio ambiente, havia um slogan em inglês que dizia: pense globalmente, aja localmente. É impressionante ver como a nova geração está assimilando essa ideia em seu comportamento. A transferência dos valores de conservação, preservação e ética ambiental é feita por meio da cultura. Por isso, é preciso educar as famílias e os professores, em primeiro lugar. Na esfera federal, temos uma boa ministra do Meio Ambiente, mas ainda falta transpor os obstáculos criados pela inércia de modelos que já estão ultrapassados. A tão falada necessidade de nova" área" de plantio é uma falácia. Precisamos é de tecnologias cada vez mais avançadas para elevar a produtividade nas áreas já existentes. O orçamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, deveria ser quintuplicado. A inovação é fundamental para ativar os pilares da sustentabilidade.
Quais são esses pilares?
São dois. Um consiste no estímulo e na divulgação de novas técnicas e tecnologias que contribuam para um mundo sustentável. Defendo, inclusive, a criação de um órgão que centralize e facilite a troca de informações entre países. O outro pilar é a renovação dos conceitos de gestão e decisão em todos os níveis, globalmente. É preciso reformar não só a ONU, mas também o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. São órgãos criados com reflexo na estrutura mundial de poder derivada da II Guerra Mundial que foram ficando ultrapassados. É necessário ainda reformular os modelos de governo e de gestão do setor público em cada país.
Em que medida?
Estamos vivendo em um mundo globalizado, e isso é um avanço. Nesse contexto, o conceito de nacionalismo tem de se transformar, precisa adequar seus limites à grade da globalização. O renascimento do nacionalismo em várias partes do mundo é um perigo que vai contra o conceito de sustentabilidade, por defender atitudes que não levam em conta as necessidades do planeta como um todo. Outra exigência da globalização é a criação de um novo sistema de indexação das riquezas nacionais e a transformação do produto interno bruto (PIB) em um indicador que permita a aferição de valores não computados atualmente, entre eles os custos ambientais. Economia e meio ambiente estão se tornando coisas interligadas. A formatação da nova economia, que já se vislumbra, terá de incluir necessariamente o fator socioambiental.
O que os governantes podem fazer para estimular as empresas a aderir ao modelo sustentável?
A primeira coisa é adotar o que chamamos de triple bottom line, as três linhas básicas - ambiental, econômica e social - para reger a economia como um todo. Cabe ao estado dar o exemplo, tanto no consumo responsável quanto no monitoramento dos recursos naturais não renováveis. Os governos também precisam usar com eficiência os mecanismos de que dispõem para regular o setor privado. Isso sem, evidentemente, ferir os princípios básicos da livre iniciativa, mas estimulando um comportamento responsável em relação ao meio ambiente. O estado tem todos os instrumentos necessários, sejam eles cirúrgicos ou intervencionistas, para fazer com que as empresas levem de fato adiante a ideia de sustentabilidade. Falo de recursos para tributar, fiscalizar e penalizar. O governo deve ter o poder de tributar adequadamente o uso de energias poluentes e premiar a adoção de energias alternativas limpas.
Por que isso ainda não está sendo feito?
O problema é convencer os governantes de que isso é fundamental e que este é o momento certo. A humanidade vive o fim de um ciclo histórico, que começou no século XVIII, marcado pela procura da liberdade individual e pela incorporação dela dentro de um convívio social. O ciclo econômico. que teve início logo depois da II Guerra Mundial e foi baseado no dólar, a moeda do país vencedor, também está terminando. Tenho esperança de que essa confluência de fim de ciclos seja aproveitada para estabelecer novas relações sociais. econômicas e ambientais, um novo modelo de convivência e de inclusão social, em que Europa e África compartilhem dos mesmos valores.
Os hábitos de consumo têm um papel nisso?
Sem dúvida. Sem consumo sustentável, haverá exaustão de recursos naturais. Antes disso, porém, podemos encontrar, através da inovação, substitutos para esses recursos. Há algum tempo participei de uma conferência com um grupo de parlamentares americanos. Eles me perguntaram como eu podia ser tão radicalmente contra os combustíveis fósseis, já que mais de 85% da humanidade depende de energia produzida por petróleo e carvão para sua subsistência. Eu disse que não sou contra petróleo ou carvão, mas contra as emissões produzidas pelo uso deles. Por meio da inovação tecnológica, as emissões podem ser reabsorvidas, de uma maneira ou de outra. Isso já está sendo estudado, embora haja resistência ao investimento nessas pesquisas por parte de indústrias acostumadas a poluir sem ser penalizadas. O verdadeiro avanço seria a mudança do sistema a partir de sua própria origem, que é a energia. Quando tivermos energia limpa a custo baixo, toda a malha da produção e do consumo se readaptará a ela.
Como o consumidor pode interferir no processo?
Cabe a ele o papel de punir, em suas escolhas, as empresas não sustentáveis. As pessoas também precisam estar muito atentas às empresas que fazem de conta que praticam a sustentabilidade, mas só na fachada, como mera ferramenta de marketing. Identificamos isso. Há muita desonestidade. De modo geral, as pessoas já estão bastante conscientizadas de seu papel, mas é preciso mais. A meu ver, é necessário inserir o custo ambiental no preço final dos produtos, taxando mais os que são menos verdes. Seria uma forma de punição de práticas condenáveis, levando o consumidor a optar por produtos feitos com matérias-primas renováveis, que ficariam mais baratos.
O senhor afirma que a ONU falha sistematicamente na questão das mudanças climáticas. Como acha que essa discussão deveria ser encaminhada?
Vejo a coisa de modo muito simples. Hoje, metade das emissões do planeta é feita por dois países, China e Estados Unidos. Se somarmos outros oito países, teremos os responsáveis por mais de 80% das emissões planetárias. Eles é que deveriam estar se reunindo e procurando uma solução de consenso. Na ONU, com uma plateia de quase 200 países com interesses nacionais diversos, nunca vamos encontrar consenso. Por isso, sou a favor de uma reunião entre os maiores poluidores do planeta, apoiada universalmente, para acharmos uma solução.
O senhor é amigo pessoal de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano. Vocês se falam frequentemente?
Sempre trocamos figurinhas. Acho que sou um dos amigos mais antigos dele. Ele veio ao Brasil a meu convite e ouvimos juntos pelo rádio a partida em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1962. Fizemos um bolão e ele ganhou. A partir daí, tornou-se fã do futebol. Kissinger vê o jogo como um campo de batalha, no qual ele estuda as posições dos diversos exércitos e enxerga estratégias militares.
Na questão ambiental vocês concordam?
Não. Basicamente, ele diz: "Fique na sua área que eu fico na minha". Eu penso no mundo do futuro e ele está pensando nos conflitos do presente. Acho que nós dois, de certa forma, temos razão.
Veja, 23/05/2012, Entrevista, p. 17-19
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