O Globo, Rio, p. 24
05 de Jun de 2004
E a má notícia: o resto continua igual
Poluição destrói lagoas da Barra, enquanto assoreamento e lixões degradam o entorno da Baía de Guanabara
Ana Wambier
O dia do meio ambiente, celebrado mundialmente hoje, deveria ser de luto para o Rio de Janeiro. Um vôo de helicóptero, durante uma hora e meia, sobre as lagoas da Barra e Jacarepaguá, além da Baía de Guanabara, mostra que a cidade tem muito pouco a comemorar: canais, rios e manguezais estão sendo rapidamente degradados devido ao excesso de esgoto e à falta de planejamento urbano.
Com as últimas chuvas e a ressaca, as águas do sistema lagunar da Barra, remexidas, estavam anteontem completamente negras e exalando cheiro de podre devido aos gases metano e gás sulfúrico.
- Quando o fundo das lagoas é remexido, esses gases, oriundos da decomposição da matéria orgânica, são liberados. A existência deles significa que não há oxigênio suficiente na água - explicou o biólogo Mário Moscatelli, presidente da ONG Ser Consciente, que no início da próxima semana vai entregar à nova secretária estadual de Meio Ambiente, Isaura Fraga, e à Alerj um relatório sobre a situação ambiental da cidade.
No Quebra Mar da Barra, era possível ver do alto o forte contraste entre a água que saía do Canal da Joatinga, preta, e a água do mar, verde esmeralda. A poluição era visível na arrebentação até a Praia do Pepê.
Duas toneladas de esgoto por segundo nas lagoas
No Canal do Arroio Fundo, que deságua na Lagoa de Camorim, próximo à Favela Rio das Pedras, mais contraste de cores. Ali, por causa da proliferação de algas, a água ficou espessa e verde num tom abacate. Na frente da favela, a água contrastava com o fluxo preto do Canal do Anil. Perto dali, num aterro hidrográfico, está sendo depositado todo o material resultante da dragagem da Lagoa do Camorim, feita pela Seria. Na Lagoa da Tijuca, gigogas - plantas aquáticas que proliferam no esgoto - se aglomeram atrás do Shopping Città América.
A Serla estima que diariamente sejam despejadas nas lagoas da Barra e de Jacarepaguá até duas toneladas de esgoto por segundo. A água das lagoas já não é capaz de reciclar todo esse volume de matéria orgânica, que se deposita no fundo e intoxica a fauna que depende de oxigênio. Até agora, o estado destinou R$ 20 milhões para obras de dragagem e despoluição das lagoas, rios e canais da Barra e Jacarepaguá.
Segundo o presidente da Seria, Ícaro Moreno Júnior, terminou esta semana a licitação para a dragagem de rios e canais. As obras custarão ao estado R$ 16 milhões. Dentre as lagoas, a da Tijuca é a única que será dragada. A intervenção, que deverá custar R$ 4 milhões, já começou..
Segundo Ícaro, além das dragagens, serão feitas obras para abertura de ligações entre o Canal de Sernambetiba e as lagoas de Marapendi e de Jacarepaguá. Isso fará com que o complexo lagunar, que atualmente tem apenas uma abertura para o mar, na Joatinga, seja revitalizado com uma segunda abertura, perto do Recreio. Os estudos da Seria mostram que esta segunda abertura fará com que a água circule, arrastando o material do fundo.
- 0 que levamos 150 anos para fazer com a Baía de Guanabara, foi feito na Barra em menos de 30 - afirmou Moscatelli, que fez ontem o sobrevôo nas duas regiões para averiguar as possíveis pioras e melhoras no ecossistema. Ele faz esse vôo todos os anos.
A Baía de Guanabara, outro local sobrevoado ontem, também mostrou que até agora, muito pouco foi feito para sua recuperação. Em Magé, a margem da baía está completamente assoreada: uma vasta praia de lama é vista perto do manguezal. Perto do Rio Sarapuí, que passa perto do aterro sanitário de Gramacho, em Caxias, boa parte do manguezal está sendo invadida por lixões clandestinos. Até mesmo uma pequena carvoaria artesanal instalou-se na região,.cercada por mangues.
Favelização, um componente a mais para estragar a paisagem
Crescimento desordenado em Vargem Pequena e Vargem Grande só aumenta despejo de esgoto nas lagoas
o A crescente favelização e a ocupação desordenada do solo são alguns dos principais problemas que contribuem para a crescente degradação da Bacia de Jacarepaguá. Os bairros de Vargem Grande e Vargem Pequena, por exemplo, estão entre os que mais crescem em população no Rio. Segundo dados do Instituto Pereira Passos, existem atualmente 1.340 domicílios em situação de favelização em Vargem Pequena e 821 em Vargem Grande.
Nenhum desses domicílios está ligado a rede coletora de esgoto. Em Vargem Pequena, 487 moradores declararam no Censo demográfico do IBGE em 2000 que jogam esgoto diretamente nos rios e nas lagoas da região. Apenas 17 domicílios declararam ter fossa séptica, 20 têm fossas rudimentares, 213 jogam esgoto em valas e 572 despejam os dejetos numa rede geral, que pode ser rede pluvial.
Preocupada com a intensa pressão demográfica na região, a Secretaria municipal de Urbanismo preparou um plano de estruturação urbana, estabelecendo regras para a ocupação em Vargem Grande e nos bairros vizinhos. 0 projeto está para ser votado na Câmara dos Vereadores. A Serla, por outro lado, fez um levantamento das favelas que estão ocupando áreas da chamada faixa marginal de rios e lagoas. Até o fim do mês, começará a marcar limites físicos, com estacas de madeira para impedir novas invasões. As invasões antigas deverão ser removidas numa ação conjunta com o Ministério Público.
Eventos por toda a cidade
a Apesar do retrato negro da situação ambiental, as secretarias estadual e municipal de Meio Ambiente planejaram unia série de atividades pela cidade para marcar este dia. 0 Instituto Estadual de Florestas promoverá palestras e exibições de vídeos ecológicos nos parques da Serra da Tiririca, da Ilha Grande, da Pedra Branca, do Grajaú e dos Três Picos, além de caminhadas ecológicas. 0 Parque da Chacrinha, em Copacabana, terá teatro infantil às 9h30m e apresentação, às 11h, do músico Márvio Ciribelli. A Serla vai começar o projeto Ecobarreiras nas faixas marginais de rios e lagoas ao longo docanal de Ponta Negra e na lagoa de Maricá. Na praça Tim Maia, no Recreio, haverá plantio e distribuição de mudas e folhetos educativos, oficinas de arte-educação, exposição de objetos produzidos com material reciclável e apresentação de grupo de percussão do Pavão-Pavãozinho.
O Globo, 05/06/2004, Rio, p. 24
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