Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: Jaci Guilherme Vieira*
30 de Abr de 2005
A falsa convivência pacífica entre índios e não-índios, pregada por uma elite coronelista, agrária, atrasada e por políticos envolvidos, em sua maioria, em corrupção, chegou ao seu final. A União resgata parte de uma dívida antiga com os povos indígenas da Amazônia, especialmente, de Roraima, ao homologar a área indígena Raposa Serra do Sol em área continua. Uma área de 1,7 milhão de hectares, localizada ao norte do atual estado de Roraima, que custou a vida de 21 lideranças indígenas desde o início da sua organização política, nos moldes dos brancos, quando então foi realizada a primeira assembléia dos tuxauas em janeiro 1977.
A luta dos povos indígenas vem dos tempos coloniais, quando aqui chegaram, os primeiros apresadores de índios. Porém, ela passou a ser mais presente quando fazendeiros nas décadas 50, 60 e 70 do século passado, deram início ao cercamento das fazendas de gado, ampliando as privatizações das terras públicas na região, o que na prática impediu o livre acesso dos índios pelos campos do Rio Branco. Esse monopólio das terras trouxe graves conseqüências econômicas para as populações indígenas, pois impedia que as diversas etnias pescassem, caçassem e coletassem. Esse cercamento teve como conseqüência imediata o acirramento dos conflitos e, logicamente, a expulsão dessas populações que ao longo dos anos passaram a ser minoria.
O que ocorreu com boa parte das populações indígenas em Roraima, deu-se também com os camponeses ingleses no início século XVII, fruto da modernização no setor agrário (Decreto das Cercas). As atividades agrícolas voltaram-se para o mercado, sendo, portanto, monopolizadas por uma pequena quantidade de proprietários que passou a usurpar a terra, arrendando-as para a criação de ovelhas, expulsando os pequenos camponeses para os incipientes centros urbanos.
Para alguns índios de Roraima não restou alternativa a não ser a fuga. Porém, para centenas deles, especialmente os das serras, foi o início de uma resistência mais politizada, pois a partir dos cercamentos, não resta dúvida, as populações indígenas, auxiliadas por uma corrente da Igreja Católica (Teologia da Libertação) deram início a uma organização indígena capaz de ser ouvida e respeitada, tanto nacionalmente como internacionalmente. Para isso, foi necessário criar projetos como: Não a cachaça e sim a Comunidade Indígena, Uma vaca para cada Índio - alternativa de auto-sustentação - e outros, e, acima de tudo, ter coragem para enfrentar um inimigo, perigoso, armado que ávido de lucro, inserido já dentro do espírito capitalista, nunca teve a mínima consideração pelo diferente.
A organização política foi, certamente, melhor alternativa que as encontradas anteriormente: a mudança para os países fronteiriços (República da Guiana, à época Guiana Inglesa e Venezuela); o trabalho nas fazendas de gado dos não-índios, onde se percebia o hábito corriqueiro de atrair os índios, ainda jovens, para criá-los como agregados das famílias, e ainda a mudança para áreas dentro da própria região, como a região das serras. Essas "fugas" foram possíveis, enquanto encontravam áreas do lavrado e das serras que ainda não haviam sido invadidas. Quando completada toda a invasão, principalmente, depois da forte migração no final de 1970 e 1980, essa última solução não foi mais possível.
Brecht tem razão quando afirma que "há aqueles que lutam toda a vida, esses são imprescindíveis". Foi assim para os índios da Raposa Serra do Sol, esses lutaram toda a sua vida sem desistir, não importando se veriam ou não suas terras homologadas, porém a luta sempre foi constante. Como já mencionada anteriormente, a primeira assembléia dos povos indígenas aconteceu em janeiro de 1977, daí para cá, nunca mais deram trégua à classe dominante local, até o dia mais importante das suas vidas, dia 18 de abril de 2005, quando, então, viram suas terras homologadas, isso prova que é por meio da luta que se muda a vida.
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