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A dura escolha de quem deve sobreviver

Veja, Ambiente, p. 134-136
18 de Abr de 2012

A dura escolha de quem deve sobreviver
Como os recursos não são suficientes para todos, cientistas propõem concentrar os esforços nas espécies de animais com maiores chances de preservação na natureza

Filipe Vilicic e Gustavo Simon

O esforço para preservar os animais em seus habitais é uma das raras causas que despertam simpatia virtualmente universal. Ocorre que, apesar do dinheiro gasto e da dedicação de governos e de organizações ambientalistas, o resultado da empreitada é muitas vezes decepcionante. Espécies adaptadas por milhões de anos de evolução a um determinado tipo de existência revelam-se incapazes de sobreviver no ambiente modificado pela humanidade (veja exemplos nestas páginas). A dúvida que atormenta os especialistas é como reagir a essa realidade.
E simplesmente permitir que a extinção ocorra não é uma resposta aceitável. Uma pesquisa recente sobre essa questão, coordenada pelo economista Murray Rudd, professor de economia sustentável da Universidade de York, na Inglaterra, identificou o nascimento de uma nova estratégia preservacionista: concentrar os esforços nas espécies cuja recuperação na natureza é viável e deixar as demais na situação em que estão, mesmo que no futuro apenas um punhado de exemplares de cada uma sobreviva em cativeiro. Em última análise, a ideia é pesar com cuidado como a equação custo-benefício se aplica a cada espécie. Rudd ouviu 583 cientistas ligados a estudos de sustentabilidade. A maioria deles - 60% - concorda que é preciso fazer uma triagem de animais. Aqueles com chances menores de sobreviver na natureza terão de ser deixados de lado. Disse Rudd a VEJA: "Para remediar nosso impacto sobre as espécies, teremos de ser mais inteligentes e preservar só as que realmente somos capazes de salvar".
Três espécies são especialmente citadas pelos cientistas como exemplos de esforço preservacionista desesperadoramente inútil: o panda-gigante, o rinoceronte-de-java e o condor californiano. As dificuldades para promover a reprodução dos pandas são enormes. As fêmeas só entram no cio uma vez por ano, por no máximo três dias, e são efetivamente férteis apenas durante 24 horas. Um estudo publicado no início deste mês revelou um novo empecilho à reprodução dos pandas. Ele mostra que os machos, ao contrário da grande maioria dos mamíferos, também possuem ciclos sexuais: só estão dispostos ao acasalamento durante cinco meses do ano. Não é só. O diminuto tamanho do pênis do panda faz com que ele encontre dificuldade para encontrar uma posição para cruzar, e as mães pandas são displicentes. Apesar de quase sempre darem à luz gêmeos, não têm energia para cuidar dos dois filhotes e dão atenção apenas a um deles. Na natureza, o rebento desprezado acaba morrendo.
A tentativa de conservação do condor californiano, um símbolo dos Estados Unidos, custa 4 milhões de dólares anuais desde o fim da década de 80. A população aumentou de 22 exemplares para 380 - 192 deles em cativeiro -, número insuficiente para garantir a sobrevivência da espécie em liberdade.
Com o mesmo investimento, segundo estimativas de alguns cientistas, seria possível tirar até uma centena de espécies de borboletas da categoria em risco de extinção. Devido à polinização que promovem, as borboletas são essenciais para a manutenção de muitos ecossistemas e das espécies que neles vivem.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (Iucn), que cataloga e analisa espécies desde os anos 60, aponta uma redução de 30% desde 1970 no número de espécies de vertebrados e revela que um em cada cinco corre risco de extinção. Todo ano, cinquenta espécies se aproximam dessa fase crítica. O principal vilão é, disparado, a perda do habitat. Quase 70% dos vertebrados em risco são vítimas da expansão agrícola. O desmatamento de florestas, o derretimento do gelo nos golos, a poluição dos oceanos e outras interferências desfiguram os biomas e, como consequência, ameaçam os animais que eles abrigam. Disse a VEJA o ecologista e matemático Hugh Possingham, da Universidade de Queensland, na Austrália: " É claro que é difícil escolher quais animais vamos abandonar. Mas estamos perdendo a batalha da conservação e, por isso, temos de abdicar do apelo emocional e passar a ser racionais". Possingham é um dos maiores defensores da triagem ecológica. Em um de seus estudos ele mostrou como a fortuna gasta para proteger o - quivi-marrom-da-ilha-do-norte, uma ave-ícone da Nova Zelândia, seria suficiente para salvar seis espécies à beira da extinção. Completa Possingham:"Temos de pensar como os economistas. De um lado, temos uma verba para gastar e do outro, precisamos escolher onde devemos fazer esse investimento. Animais simbólicos, como os pandas, dificilmente serão mantidos na natureza. Ao menos enquanto não garantirmos a manutenção de outras espécies mais relevantes para os ecossistemas".

Veja, 18/04/2012, Ambiente, p. 134-136

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