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Dois caras em Copenhague

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: VIANA, Jorge
23 de Ago de 2009

Dois caras em Copenhague

Jorge Viana

Com a notícia da possível entrada da senadora Marina Silva na corrida presidencial, muitos afirmam que 2010 será o momento do debate da questão ambiental. É certo que a presença da Marina valoriza o tema, mas a hora da tomada de uma posição firme sobre sustentabilidade e mudança climática é agora em 2009, quando as nações do mundo se reúnem para decidir sobre isso.

É preciso ter consciência e clareza de que a posição brasileira tem capacidade para influenciar decisivamente na COP-15, em Copenhague, pesando na inclinação do Tratado Pós-Kioto entre o avanço e o atraso. A verdade é que na questão ambiental o mundo ainda está no século passado e vai decidir agora se entra ou não no século XXI.

Na comentada visita do ministro britânico de Energia e Clima, Ed Miliband, ao Parque Nacional do Xingu, ele não teve pudores em afirmar que a Conferência de Copenhague sem debater o desmatamento na Amazônia seria como o Protocolo de Kioto sem a adesão dos Estados Unidos.

Depois de dar uma no cravo, o inglês mandou outra na ferradura. Afirmou que, sendo os maiores emissores de gases poluentes desde a Revolução Industrial, iniciada na própria Grã-Bretanha em meados do século XVIII, os países desenvolvidos têm mais responsabilidade no combate ao problema do que os países em desenvolvimento.

Mas apesar da "média" do ministro inglês, está claro que o mundo não aceita mais a condescendência dada aos países em desenvolvimento na Conferência de 1997, nem a passividade diante de atitudes como a dos Estados Unidos de George W. Bush, que simplesmente desdenhou o Protocolo de Kioto.

Por isso acredito que dois líderes terão papel decisivo e histórico na Conferência de Copenhague: o da potência desenvolvida que mais emite gases poluentes e do país emergente detentor do maior potencial ambiental do planeta. Claro que falo de Barack Obama e de Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao tornar-se o primeiro negro presidente do Estados Unidos, Obama acenou com mudanças além do sonho americano. Ao entrar na Casa Branca, a crise mundial entrou atrás, como que testando a sua competência. Ele segue avançando, mas terá em Copenhague o desafio de revelar a dimensão do seu compromisso com o futuro do planeta. A trajetória de Obama indica que ele deve fazer história, levando os Estados Unidos a liderarem um real esforço dos países desenvolvidos pela desaceleração das suas emissões de poluentes, 70% delas provenientes das matrizes de energia e transportes.

Do lado de cá dos países emergentes, a situação praticamente se inverte.

No Brasil, cerca de 70% das emissões de gases são originárias de queimadas.

Isso já basta para que uma posição avançada em relação à Amazônia seja esperada em Copenhague. Mas o presidente Lula sabe que o Brasil está destinado a responsabilidades maiores.

Por um lado, devemos afirmar uma referência de cultura de sustentabilidade para os países em desenvolvimento, inclusive a Índia e a China.

Por outro, a posição brasileira deve gerar credibilidade para a mediação de compensações dos países desenvolvidos pelos custos sociais que a conservação ambiental possa impor às nações mais pobres, inclusive o reconhecimento do direito de remuneração pelo desmatamento evitado. Tanto isso é possível que, em 2005, o governo do presidente Lula, tendo a senadora Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, com a redução do desmatamento e a admissão de metas, viabilizou a criação do Fundo Amazônia, que captou US$ 1 bilhão para investimentos ambientais que começam a acontecer agora.

Em Kioto, em 1997, o governo brasileiro buscou um protagonismo às avessas, porque, em vez de relativizar, negava a contribuição dos países em desenvolvimento, embora, há mais de uma década, parecesse altivo excluir as florestas das negociações e realçar a culpa histórica dos países ricos. No contraponto, os Estados Unidos de George W. Bush puxaram a evasão dos ricos. Assim o Protocolo de Kioto foi esvaziado por todos os lados.

O presidente Lula tem afirmado que não abre mão de fazer o Brasil um dos principais protagonistas na Conferência das Mudanças Climáticas de 2009, introduzindo a discussão de metas de redução de emissão e de desmatamento para os países em desenvolvimento. Do outro lado, Barack Obama traz a esperança de uma completa reviravolta na posição americana, trocando a arrogância de outra era pelo reconhecimento do enorme passivo ambiental dos Estados Unidos e dos países mais ricos.

Lula e Obama já chegarão grandes em Copenhague, mas podem sair muito maiores. Como Obama disse que Lula é o cara, o mundo quer ver os dois jogando juntos na COP-15.

Jorge Viana é engenheiro florestal. Foi prefeito de Rio Branco (1993/96) e governador do Acre (1999/2006) pelo PT.
E-mail: jorgeviana.ac@gmail.com.br.

O Globo, 23/08/2009, Opinião, p. 7

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