OESP, Nacional, p. A10
28 de Nov de 2007
Dois anos depois, bispo faz novo jejum
Frei Luiz Cappio é contra transposição
Tiago Décimo, Salvador e Roldão Arruda, São Paulo
O bispo da Diocese de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, de 61 anos, começou ontem uma nova greve de fome para protestar contra o projeto de transposição do Rio São Francisco. Em outubro de 2005, ele já havia protestado contra a obra, com um jejum que se manteve durante 11 dias - e só foi interrompido depois de promessas do governo de que a transposição seria rediscutida.
Em carta distribuída ontem, pouco antes de iniciar a greve, às 10 horas, o bispo disse que voltava a recorrer ao gesto "desesperado" porque o governo não cumpriu o acordo. Também afirmou que está disposto a morrer "pela vida do rio" e que só pretende suspender o jejum "se as tropas do exército saírem dos locais onde estão sendo realizadas as obras ou se forem arquivados definitivamente os projetos de transposição".
Para a segunda greve, o bispo escolheu a cidade de Sobradinho, a 554 quilômetros de Salvador e nas proximidades das obras tocadas por soldados do Exército. Ele tem o apoio de setores progressistas da Igreja, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), mas também enfrenta a oposição de bispos favoráveis à transposição.
Em nota oficial distribuída ontem à tarde, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) registrou o impasse no interior da organização. Depois de ressaltar a necessidade de um "amplo diálogo visando a soluções adequadas e considerando as alternativas apresentadas pelas forças sociais populares", a nota conclui: "Temos clareza que o tema da transposição do Rio São Francisco traz consigo muitas implicações, não havendo unanimidade nem mesmo na Igreja, o que julgamos perfeitamente compreensível."
Ao falar sobre a atitude do bispo, em entrevista concedida à Rede Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático ao afirmar que não pretende paralisar o projeto. "A obra vai continuar", afirmou.
Ele também lamentou a atitude do bispo, que estaria tentando colocá-lo num impasse: "Optar entre ele e os 12 milhões de nordestinos que precisam de água para sobreviver". E arrematou: "Vou ficar com os pobres." Lula disse que pretende inaugurar a obra antes de deixar o governo.
Trata-se de um projeto que tem causado polêmicas desde seu surgimento. Para os críticos, existem alternativas mais baratas, de caráter regional. Eles também afirmam que a transposição beneficiará sobretudo grandes produtores rurais.
OESP, 28/11/2007, Nacional, p. A10
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