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Do Paraiba as torneiras do Rio

O Globo, Rio, p.26-27
18 de abr de 2004

MORTE ANUNCIADA: ESTADO DO RIO CONSOME 231,9 LITROS DIÁRIOS POR HABITANTE, 65% A MAIS QUE A MÉDIA NACIONAL
A água nossa de cada dia por um fioReservatórios chegam à metade da capacidade, estação enfrenta sobrecarga química enquanto Cedae perde 54% da produçãoA água de beber está cada vez mais distante das torneiras cariocas e fluminenses. A sede começa nos reservatórios do Paraíba do Sul, responsáveis por 75% do abastecimento do estado, onde o nível dágua caiu pela metade nos últimos oito anos. No curso do rio, são adicionados um bilhão de litros de esgoto não tratado e sete toneladas de resíduos químicos por dia. A barragem de Santa Cecília, então, leva a água na direção do Rio Guandu, onde o manancial recebe mais carga de despejos industriais e domésticos. Aí, para ser tratada, recebe 300 toneladas diárias de produtos químicos — nos últimos sete anos, esse volume aumentou 20% em situações críticas do rio. Pronta para ir ao copo, ela fica pelo caminho: 54% da água tratada pela Cedae se perdem na rede durante a distribuição. A via-crúcis hídrica ainda não acabou. Da torneira do carioca, jorra mais água do que em todos os grandes estados do país. São 231,9 litros diários por habitante, 65% a mais que a média nacional. E, por fim, quando chega a conta, mais desperdício: apenas 56,9% do consumo de água é medido por hidrômetros — o pior índice das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.Cedae: situação não está tão críticaÉ um cenário catastrófico, na visão do coordenador do Comitê para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul (Ceivap), Cláudio Serricchio:— Vivemos uma situação-limite diante de um poder público impassível. Num estado com escassez cada vez maior de recursos hídricos, há uma empresa totalmente ineficiente e, para piorar, um consumo altíssimo de água. É uma equação que não fecha. Se o quadro não se alterar, é claro, viveremos a seca. O presidente da Cedae, Aluizio Meyer, não acha que o estado viva uma situação tão crítica, mas reconhece problemas nos mananciais:— Não apenas o Rio, mas o mundo inteiro trata seus recursos hídricos de forma muito ruim. A degradação dos cursos dágua parece ser algo natural. Para mudar isso, na Cedae, estamos trabalhando forte em recuperação ambiental. No abastecimento, nossa situação é privilegiada. Ainda vamos construir outra estação de captação, a Guandu 2.Na última semana, chuvas na cabeceira do Paraíba deram um alento: a capacidade dos reservatórios aumentou de 42% para 45,7%. Mesmo assim, há risco de não haver água para tratar, já que a vazão atual do Guandu é de 130 mil litros por segundo e a Cedae precisaria, antes de qualquer novo empreendimento, do dobro do volume dágua tratado — 43 mil litros por segundo — para diluir toda a carga orgânica e industrial. O projeto símbolo da Cedae é o reflorestamento de 50 quilômetros de margem do Rio Guandu, abastecido pelo Paraíba do Sul através da transposição de águas. Ainda estão previstas a escavação de poços em Vassouras e a ampliação da estação de captação em Pinheiral.A recuperação não é suficiente, para o deputado estadual Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), que anuncia uma investida contra irregularidades no Paraíba e no Guandu. — Vamos acionar o Ibama, a Delegacia de Meio Ambiente, a Feema e aplicar multas pesadas de até R$ 50 milhões. Tratamento requer 600t de sulfato de alumínio por diaMinc é autor da emenda na Constituição estadual que exige o tratamento primário para qualquer efluente lançado no rio, mas reconhece que falta muito para a medida ser respeitada nas bacias estaduais.No dia-a-dia de Reinaldo Machado, a quantidade de água é o que importa, mas ele se preocupa com a qualidade. Sua função é operar a barragem de Santa Cecília, onde dois terços do Paraíba do Sul são transpostos na direção do Guandu. Das ações de Reinaldo — comandadas pela Operadora Nacional do Sistema (ONT), órgão vinculado ao Governo federal — sai a água que enche o copo de 8,5 milhões de pessoas na Região Metropolitana e na capital.— Sei que é uma responsabilidade grande, pela quantidade de água. Qualquer problema aqui pode provocar seca. A qualidade? Está mais ou menos, né. É questão de se conscientizar — diz ele.Passada a transposição, as águas do Paraíba correm até a estação de tratamento de água do Guandu, a maior do mundo. O superintendente da unidade, Edes Fernandes de Oliveira, diz que atualmente o problema são os rios Ipiranga, Poços e Queimados, acima da captação. Isso fez com que, em picos críticos, a Cedae aumentasse em 20% o uso de produtos químicos nos últimos sete anos. — Em um dia, usamos 600 toneladas de sulfato de alumínio, para tratar apenas dez mil litros por segundo (quatro vezes menos que o normal) — explica Edes.Embora o problema seja crescente, a Cedae ainda não decidiu entre duas intervenções possíveis: o tratamento do esgoto lançado nos rios ou paliativo de um desvio da água poluída para abaixo da estação de captação.A unidade de Guandu já sofreu com problemas de qualidade da água, como em 2001, quando a proliferação de algas tornou o odor da água tratada insuportável. Mas, em condições normais, os padrões de potabilidade são respeitados, segundo a companhia. Uma tabela de qualidade da água, sem detalhamento de bairros, é divulgada semestralmente. Segundo o Ceivap, somados a todos os problemas estruturais, a Cedae ainda é deficitária — vende água a R$ 1,2 por mil litros enquanto o custo é de R$ 1,92. Meyer contesta:— Isso não existe. O problema é que temos muitos inadimplentes. São R$ 3 bilhões a receber. Nossa receita seria de R$ 160 milhões e a despesa é de R$ 120. O problema é que só recebemos R$ 105 milhões. Assim, devemos R$ 150 milhões de ICMS.

LAJES, UM PARAÍSO NO MEIO DO CAOS

Entre rios degradados, margens desmatadas e muita poluição, um paraíso em forma de reservatório resiste, praticamente intocável. São as águas armazenadas pela Barragem de Lajes, tão puras que não passam por tratamento convencional para abastecer o Rio, a não ser a adição de cloro. Oswaldo Pires Gonçalves, gerente da Light, empresa dona da área, conta que o medo que os funcionários tinham do mosquito da febre amarela, no início do século passado, ajudou a preservar o local:— Ele deixaram um quilômetro de Mata Atlântica preservada no entorno do reservatório porque diziam que era esse o alcance de vôo do mosquito. Assim o inseto não poderia alcançar as casas. Por acaso, um mosquito preservou 11 mil hectares de Mata Atlântica e um reservatório — diz Oswaldo.A água, límpida e cheia de cardumes de peixes grandes, gera energia para a Light e fornece 5.500 litros por segundo ao Rio. Além disso, serve de reservatório de emergência em caso de pane do sistema Guandu, podendo abastecer a Região Metropolitana e a capital por até 30 dias, segundo a Light.

A SERIE
•DOMINGO: O risco de colapso no Paraíba do Sul
•SEGUNDA: Os peixes deformados do fundo do rio
•TERÇA: 0 esgoto das prefeituras no Médio Paraíba
•QUARTA: Algas tóxicas matam cobaias no Funil
•QUINTA: As lagostas ameaçadas do Paraíba
•SEXTA: A guerra do Paraíba do Sul com o mar
•ONTEM: A cobrança pelo uso da água do rio

O Globo, 18/04/2004, p. 27

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