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A dizimação do futuro

JB, Idéias, p. 2
10 de Set de 2005

A dizimação do futuro

A dimensão natural e as transformações que acontecem de maneira cada vez mais acelerada no globo são ameaças que resultariam não apenas no fracasso social, mas na própria dizimação da espécie. Atualmente é impossível pensar o natural fora do contexto social, que a cada dia reinventa o ambiente, como defende o geógrafo João Rua, professor da Uerj e Puc-Rio:
- A dinâmica natural muda com a lógica capitalista e só pode ser recuperada com a mudança social e escolhas políticas diferentes. Os danos do furacão Katrina, por exemplo, não aconteceram porque os diques dos rios estavam sem manutenção, mas porque pessoas viviam em uma região de extrema pobreza. Diques mais altos não evitariam a tragédia.
A agressão contra a natureza, segundo o teólogo Leonardo Boff, acontece porque o homem não interage com o meio, mas age como se fosse o dono do meio-ambiente. Com isso, a cada ano os recursos naturais se tornam mais escassos:
- O lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki alterou um pouco essa concepção, mas ainda resta a ilusão de que é possível continuar nessa velocidade de desenvolvimento. Para universalizar o nível de vida dos países ricos seria preciso dispor de um planeta quatro vezes maior que o nosso.
Novos escolhas, segundo Boff, são exigidas por um sistema que não comporta mais a idéia de desenvolvimento sustentável, já que a lógica do lucro é um obstáculo ao equilíbrio dos recursos naturais.
- A idéia de desenvolvimento sustentável foi usada como uma doutrina para ofuscar a exploração contínua de recursos humanos e naturais, uma espécie de capitalismo ecológico - complementa João Rua.
A educação para um consumo reduzido, o fim da idéia dos EUA como paradigma de vida para todo o mundo e a participação da sociedade organizada em grupos são algumas das medidas urgentes para mudar paradigmas e evitar o fracasso, segundo João Rua. Leonardo Boff vai além, uma vez que ''a sociedade não aprende nada com a história, apenas com o sofrimento dos desastres''.
- O Katrina, as fogueiras na Europa, as alterações climáticas do Brasil são evidências do descontrole. A mudança terá que ser feita para distribuir os recursos. Não por ideologia, mas por matemática - opina Boff.
A distribuição passa também pela reforma agrária, outra questão levantada por quase todos os especialistas, como é o caso do cientista político Hélio Jaguaribe:
- Lamentavelmente a reforma agrária não foi feita no período conveniente, entre os anos 40 e 80. Com isso, imensa massa de pessoas do mundo rural, miserável, ocupou as cidades brasileiras, empurrando o nível de qualidade educacional para baixo, pois a educação pública não foi capaz de incorporar essa massa de imigrantes e seus filhos.
O economista Eduardo Giannetti, no entanto, discorda. Para ele, muito mais grave do que não ter feito a reforma agrária foi o fracasso do planejamento familiar, que teria causado, segundo ele, muito mais danos do que mudanças no sistema agrário. Giannetti aponta ainda outro problema nunca resolvido no país: a estrutura do Estado brasileiro.
- Ora centralizador, ora federativo, o pêndulo bate de um lado para o outro e não chegamos a um equilíbrio. A Constituição de 1988 criou um federalismo truncado. Tais indefinições, por exemplo, causam enormes desvios fiscais, que implicam na perda de investimento na infra-estrutura. Se optamos pelo federativo, temos que implementá-lo. Dar mais forças aos Estados e municípios. O passeio do dinheiro por diversos níveis de governo acentua a corrupção - enfatiza.
Acrescente-se à observação do economista a crítica à legislação brasileira do sociólogo Gláucio Soares. Para ele, um dos grandes atalhos para o nosso fracasso está em nossas leis:
- Não somos nada iguais perante a lei - afirma.
Apesar de todos os problemas, impasses e conseqüentes fracassos, nunca se imaginou que este aqui fosse um país qualquer. Pode-se dizer, de acordo com a economista Leda Paulani, que essa idéia de país do futuro funcionou como uma espécie de mito fundador de nossa nacionalidade.
Mas se tratou - ressalta ela - de uma fundação falsa, como é da natureza dos mitos, e ao mesmo tempo funcional, porque permitiu às acomodadas, deprimidas e subservientes elites brasileiras desenvolver o país sem carregar consigo nesse processo a maioria da população, jogando sempre para o futuro o acerto de contas que faria desta imensidão chamada Brasil uma verdadeira nação. Ou nas palavras de Eduardo Giannetti:
- Pode ser que o sucesso esteja imbricado no nosso fracasso, mas esta é uma visão pessimista. Ou como cantaria Caetano Veloso, coloquei todos os meus fracassos na parada de sucessos.

JB, 10/09/2005, Idéias, p. 2

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