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Dívida histórica com os povos da floresta

O Globo, Amanhã, p. 29
Autor: GEORGE, Melissa
04 de Jun de 2013

Dívida histórica com os povos da floresta
Legado da Rio+20 repercute na Austrália com a criação de Rede Indígena Mundial. Valorizar o conhecimento ecológico tradicional é uma das metas

Melissa George/colunista convidada
Copresidente do Conselho Consultivo Nacional para a Rede Indígena Mundial

Na semana passada, na Austrália, gestores e fiscais de territórios indígenas em terra e no mar protagonizaram um momento de orgulho, quando se reuniram para a primeira Conferência da Rede Indígena Mundial.
Este evento, que contou com 1.200 delegados de mais de 50 países, representou um marco ao reunir pessoas que detêm a responsabilidade de cuidar de seu meio ambiente, combinando o conhecimento tradicional e a ciência ocidental para atingir as melhores práticas.
A partir de agora, a rede internacional será gerenciada pela Iniciativa Equatorial, do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud). A iniciativa reúne Nações Unidas, governos, sociedade civil, empresas e organizações de base para reconhecer e promover as soluções locais de desenvolvimento sustentável para as pessoas.
A Conferência foi anunciada em junho de 2012, no Brasil, durante a Rio+20, pela primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard. Eu me senti honrada ao estar ao seu lado quando ela afirmou que todos nós "temos uma grande dívida com as populações indígenas pela sua custódia do meio ambiente" e, portanto, dividimos a responsabilidade em nos unirmos a eles para "proteger e nutrir a terra e os mares no futuro". Concordo plenamente. Neste momento crucial de nossa História estamos em grande débito com aqueles que gerem esses territórios em terra e mar e com seus esforços para proteger nosso meio ambiente.
Enquanto gestores de territórios indígenas em terra e no mar se deparam com desafios únicos, estamos todos unidos por um laço comum - a responsabilidade e o orgulho que acompanham a proteção das paisagens e recursos naturais.
Há muito o que podemos aprender uns com os outros ao compartilharmos conhecimento, experiências e as histórias da conservação da terra e do mar que ecoam por gerações de nossas famílias.
Como nativa de Magnetic Island, na Austrália, é minha responsabilidade cultural preservar este local. É também meu legado passar adiante meu conhecimento, assegurando que meu país e seus valores culturais e naturais serão mantidos no futuro.
Este não é um conceito novo para os gestores de territórios indígenas em terra e no mar. Temos compartilhado nossos conhecimentos por milhares de anos. Um benefício periférico da Conferência é o reconhecimento de nossa contribuição para proteger o meio ambiente mundial.
Mais importante, a Rede Indígena Mundial proporcionou uma oportunidade de dividir nossas ideias e experiências. Entre os palestrantes houve participação dos brasileiros: Cristina Timponi Cambiaghi, assessora para Assuntos Internacionais da Fundação Nacional do Índio (Funai) do Ministério da Justiça; e Osvaldo Barassi, membro da ONG brasileira Equipe de Conservação da Amazônia (Ecam).
A Ecam é uma organização da sociedade civil que trabalha na proteção biocultural da Amazônia brasileira e das populações que ali residem. A entidade treina representantes indígenas locais para proteger a Amazônia, ao mesmo tempo em que cria conscientização sobre o assunto em suas comunidades e, mais amplamente, sobre a importância de uma sustentabilidade direcionada e gerenciada localmente.
Estou certa de que aprendemos muito com a Ecam na Conferência, incluindo como suas experiências podem ser aplicadas no gerenciamento de terras e mares no contexto australiano. Dividir nosso conhecimento coletivo sobre a conservação da biodiversidade nos traz soluções práticas para gerir nossos recursos naturais, enquanto o intercâmbio cultural cria uma oportunidade de construir relacionamentos sólidos e redes de apoio confiáveis.
Estes vínculos são essenciais para os gestores, em todo o mundo de territórios indígenas em terra e no mar, pois precisam responder a desafios que incluem interesses conflitantes pelo uso tradicional da terra, recursos limitados e a perda das tradições ao longo das gerações.

O Globo, 04/06/2013, Amanhã, p. 29

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