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Disposto a tudo pela causa

CB, Brasil, p.14
02 de Out de 2005

Disposto a tudo pela causa
Renata Mariz
A carta enviada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a dom Luiz Flávio Cappio, bispo que está em Cabrobó, interior de Pernambuco, fazendo greve de fome há seis dias contra a transposição do rio São Francisco, não convenceu. Ontem, após celebrar uma missa na capela de São Sebastião, às margens do São Francisco, dom Luiz leu a correspondência, reservadamente, e afirmou que a greve de fome continuará. Num documento curto, o religioso respondeu ao presidente Lula deixando bem claro que o protesto só terá fim quando o projeto de transposição for suspenso e um debate com a sociedade, iniciado.
Lula enfatizou, na carta, que as obras de transposição ainda não começaram e que as ações de revitalização do rio, que é uma das reivindicações de dom Luiz Cappio, estão sendo desenvolvidas. Mesmo assim, o bispo está decidido a permanecer sem comer. Autoridades que acompanharam a missa celebrada pelo religioso mostraram-se preocupados com seu estado de saúde. "A situação é de urgência urgentíssima. Pode-se perder uma vida, caso o presidente não revogue a decisão de iniciar as obras de transposição do rio São Francisco", disse o senador César Borges (PFL-BA).
Os parlamentares que se reuniram em Cabrobó num ato público de solidariedade ao bispo decidiram pressionar o presidente Lula por uma solução. "Iremos circular entre governadores, buscar contatos de deputados e senadores em Brasília para redigir e entregar, junto com os familiares do religioso, uma carta ao presidente", conta a senadora Heloísa Helena (PSol-AL). O pedido será para que Lula suspenda o projeto de transposição do São Francisco e reinicie o debate sobre as alternativas para o semi-árido. Isso porque questionamentos ambientais, políticos, econômicos e jurídicos, segundo dom Luiz Cappio, ainda carecem de respostas.
Mas a resposta que virá do Palácio do Planalto, enfatiza dom Itamar Vian, precisa ser rápida. "Esperamos que aconteça ainda hoje, pois o frei vai continuar a greve até o fim", diz o representante da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB) que tem acompanhado dom Luiz Cappio desde o início do protesto. Grupos indígenas da região Nordeste também pedem uma solução rápida. A representante dos Tubalalá, Maria José Marinheiro, afirmou que seu povo tem as mesmas reivindicações do bispo. "Queremos à revitalização do rio e a preservação ambiental", disse.
Além de lideres indígenas, estiveram presentes na missa de ontem o governador da Bahia, Paulo Souto; os senadores Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA)e Teotônio Vilela Filho (PSDB-AL); o deputado Félix Mendonça (PFL-BA) e representantes da Igreja Católica. Enquanto espera uma resposta do governo, dom Luiz Cappio continuará na capela onde rezou a missa, próximo ao local do eixo norte da transposição.

Família apóia gesto
A família do bispo de Barra, Luiz Flávio Cappio, acredita que o religioso, que está em greve de fome desde o último sábado, já começa a apresentar sinais de que sua saúde está debilitada. "Ele começou a ter desmaios", contou a sobrinha Renata Cappio. O protesto do bispo para impedir a transposição do rio São Francisco recebeu o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da família e dos amigos, que moram em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba.
Desde o início da semana, todas as missas realizadas nas igrejas da cidade são oferecidas ao bispo, "para que ele tenha êxito em seu propósito". Ao começar o protesto, o bispo enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo a interrupção das obras de transposição do São Francisco. "Ele, que sempre fez campanha para o presidente Lula pois queria ver o povo no poder, não está tendo a mínima atenção, Por isso, decidimos pedir clemência ao presidente", disse Renata.
Depois da própria CNBB enviar uma carta a todas as igrejas, em solidariedade ao protesto, a família também decidiu pedir socorro. Uma carta a alguns ministros e a Lula foi encaminhada na sexta-feira. "Quantas vezes meu tio vestiu a camisa do presidente Lula. Chegou a vez de Lula vestir a dele."

CB, 02/10/2005, p. 14

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