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Dilúvio para driblar crise energética

Jornal do Brasil-RJ
Autor: Abnor Gondim
25 de Jun de 2001

Aneel autoriza elevação de nível do reservatório de Tucuruí em dois metros, mas Procuradoria teme impacto ambiental

O nível do reservatório de Tucuruí (PA), a maior hidrelétrica inteiramente brasileira, vai subir dois metros para gerar a partir de janeiro de 2002 mais 940 mil megawatts/hora/ano, o equivalente à demanda de uma cidade de 700 mil habitantes. Autorizada no início deste mês pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a elevação da cota máxima do reservatório causará um novo dilúvio nas margens do rio Tocantins com efeitos ambientais e sociais ainda não dimensionados.
A Eletronorte, estatal encarregada de gerar energia na Amazônia, corre contra o tempo para iniciar a obra e ajudar a combater a crise energética do país. Já apresentou proposta de estudo de impacto à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado (Sectam). Mas poderá enfrentar mais uma ação em defesa do meio ambiente promovida pelo Ministério Público Federal.
Ouro - A elevação do reservatório é vista pelos técnicos da Eletronorte como uma mina de ouro no fim do túnel. É que a nova fatia energética vai ser destinada ao Mercado Atacadista de Energia (MAE), onde o preço do megawatt/hora está em R$ 670. A hora do novo excedente custaria R$ 73 mil.
Os mais otimistas apontam que essa nova receita da estatal poderá compensar seu desequilíbrio financeiro, costurado por um déficit estimado em US$ 5 bilhões desde 1984 até 2004. É o tamanho do rombo provocado pela tarifa com desconto oferecida às duas maiores indústrias de alumínio do país - Albrás, em Barcarena, a 50 km de Belém, e Alumar, em São Luís do Maranhão. Caberá à Aneel decidir para onde irá essa energia excedente. O destino deve ser o Nordeste.
Alto impacto – Com a atual capacidade de 4.000 megawatts, Turucuí só perde em geração de energia para a hidrelétrica binacional de Itaipu (PR). O lago artificial de Tucuruí também é o segundo maior do país, com seus 2.850 quilômetros quadrados, quase a metade do território do Distrito Federal. Está abaixo apenas de Sobradinho, na Bahia, onde funciona a hidrelétrica de Paulo Afonso. Na cota atual, o lago de Tucuruí abriga 53 milhões de metros cúbicos de litros de água. Por isso, a Sectam condicionou a autorização para elevar o nível do reservatório a uma avaliação sobre a inundação de novas áreas e o possível remanejamento de populações ribeirinhas.
''Estamos atentos para analisar os efeitos dessa obra'', afirmou ao Jornal do Brasil o procurador da República no Pará Ubiratan Cazzeta. Ele é um dos responsáveis por recente ação judicial que obteve liminar da Justiça Federal para suspender os estudos de impacto ambiental encomendados pela Eletronorte para as obras da futura hidrelétrica de Monte Belo, no rio Xingu, em Altamira, 500 km a oeste de Belém. Um dos motivos para a concessão da liminar é a repercussão da obra sobre uma comunidade indígena que vive perto da barragem projetada. Outro fator foi a competência atribuída ao Ibama para analisar relatórios de impacto ambiental em rios nacionais, como é o Xingu. No caso de Tucuruí, o estudo ambiental a ser encomendado pela Eletronorte será o primeiro do gênero na área.

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