O Globo, País, p. 5
01 de Jul de 2015
Dilma e Obama dão fôlego a acordo climático
Para analistas, anúncio facilita compromisso global, mas não altera promessas internas da petista
FLÁVIA BARBOSA* E
ANA LUCIA AZEVEDO
opais@ oglobo.com.br
Os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama anunciaram ontem, na Casa Branca, acordo climático que inclui, por parte do Brasil, o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2030 e de restaurar 12 milhões de hectares de florestas. Segundo analistas, foi um avanço que pode facilitar um pacto global, mas pouco acrescenta às promessas já feitas por Dilma no país. -WASHINGTON E RIO- Ao anunciarem um compromisso conjunto de combater as mudanças climáticas, os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama deram fôlego às negociações mundiais. Um passo político considerado significativo e que aumenta a chance de um acordo global na conferência do clima da ONU, em dezembro, em Paris, a COP 21. Porém, poucas novas medidas concretas foram anunciadas. A declaração coincidiu com a apresentação de metas de redução de emissões da China, direcionadas à energia renovável.
Brasil e EUA se comprometeram internacionalmente a cumprir metas de redução de emissões internas. No caso do Brasil, a principal a novidade foi o anúncio da restauração de 12 milhões de hectares degradados até 2030, objetivo que se enquadra dentro do previsto do novo Código Florestal, que prevê a recuperação de um passivo ambiental de cerca de 21 milhões de hectares em 20 anos. Obama afirmou que os objetivos são "muito ambiciosos":
- Isso mostra que as principais economias do mundo podem trabalhar juntas para confrontar o desafio comum. Estou confiante de que isso nos levará a um forte resultado em Paris.
Dilma saudou a disposição dos EUA de assumir meta de chegar a 20% de fontes renováveis, excluídas as hidrelétricas, na geração de energia elétrica. O Brasil perseguirá o mesmo percentual.
- O presidente Obama e eu tomamos uma decisão que considero muito importante: é o tema da mudança do clima, um dos desafios centrais do século XXI - disse Dilma. - Essa decisão tem muito a ver com as nossas perspectivas e a nossa participação num acordo global de redução de emissões para que a gente consiga, de fato, concretizar esse acordo na COP 21.
PUXADOS PELA CHINA
A presidente disse que o Brasil antecipou, para dar força política ao comunicado conjunto, o objetivo de alcançar desmatamento zero até 2030. Mas ambientalistas criticaram a presidente por prometer erradicar o desmatamento ilegal.
- Isso é apenas cumprir a lei. No que diz respeito ao desmatamento foi uma decepção e não progride em relação ao compromisso voluntário de 2009, do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, para reduzir o desmatamento total em 80% até 2020, uma meta que, aliás, caminhamos para cumprir. Já do ponto de vista político foi importante porque o Brasil apresentou um compromisso internacional - afirmou Beto Veríssimo, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que monitora o desmatamento brasileiro.
Especialista em mudanças climáticas, Paulo Artaxo, da USP, considerou o compromisso decisivo para um acordo global:
- Fiquei surpreso porque houve a promessa de estabelecer sistemas de verificação de metas e o compromisso público de presidentes. Pode ser um divisor de águas num acordo internacional.
Ele frisa que para isso a mudança de postura da China foi fundamental. Ela passou de intransigente nas negociações climáticas à defensora de energia renovável e reflorestamento.
A motivação é econômica. Os EUA disputam a liderança com a China nessa área. O Brasil, outrora pioneiro em etanol, está ficando para trás, acrescenta Artaxo. Maior emissora do mundo de CO2, a China também é a líder mundial em energias renováveis. O país anunciou que 20% de sua matriz energética virão de energias renováveis até 2030. Meta semelhante à apresentada por Brasil e EUA, mas com dimensões maiores. O Brasil "pretende que sua matriz energética atinja, em 2030, uma participação de 28% a 33% de fontes renováveis além da geração hidráulica", diz o texto.
- Hoje já temos 28,5% da matriz energética de fontes renováveis não hídricas. Ou seja, já estamos dentro dessa meta. Não há nada novo aí. Mesmo se considerarmos a projeção de que a demanda por energia crescerá 70% até 2030, estaremos dentro da meta. Houve um avanço político na área climática importante, mas está dentro do realinhamento econômico global - frisa André Ferreira, presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente.
O percentual dos EUA hoje é de 12,9%. A meta chinesa demanda que o país instale uma capacidade energética renovável superior a que existe hoje em todas as suas usinas de carvão e perto de toda a capacidade de geração de eletricidade dos EUA.
O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, também não viu internamente nada diferente do já anunciado pelo governo:
- Você não viaja tanto para dizer que cumprirá a lei e combaterá o que é ilegal. Para nós, o anunciado está aquém do necessário. Veja o tamanho da diferença entre ações brasileiras e chinesas. O Brasil pretende em 2023 produzir dois gigawatts por ano de energia solar. A China faz isso hoje a cada dois meses
O Globo, 01/07/2015, País, p. 5
http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-obama-dao-folego-para-acordo-globa…
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