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Dia dos Povos Indígenas: projeto leva prevenção do câncer a mulheres na Amazônia e fortalece quem protege a floresta

Um só Planeta - umsoplaneta.globo.com
Autor: Nilson Cortinhas , Um Só Planeta
19 de Abr de 2026

Evitar que uma geração de mulheres indígenas seja impactada por doenças preveníveis é importante para a saúde individual, e também tem um significado social e cultural: preserva conhecimentos tradicionais, fortalece a organização comunitária e, de quebra, mantém um dos principais pilares de proteção da floresta em pé. Celebrado hoje, dia 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas chama atenção para esses desafios históricos no Brasil, entre eles, o acesso desigual à saúde.

Na Amazônia, mulheres indígenas ainda enfrentam barreiras estruturais que limitam a prevenção do câncer de colo do útero, um dos mais incidentes no país e com maior risco de mortalidade nesses territórios.

No Alto Rio Negro, uma iniciativa da SAS Brasil, o projeto Anariá, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a ONG Expedicionários da Saúde, tem utilizado telemedicina e formação de profissionais locais para levar diagnóstico a comunidades isoladas, o que acarreta diminuição nas desigualdades no acesso à saúde e fortalece a permanência dessas populações na floresta.

O principal entrave para o rastreamento da doença combina fatores culturais e estruturais. "Além da barreira cultural e da resistência a exames ginecológicos preventivos, há desafios críticos como a escassez de especialistas, as longas distâncias até centros urbanos e a diversidade linguística, com mais de 20 línguas faladas na região", explica a Head de Pesquisa e Ensino do Living Lab SAS Brasil, Gabriela Sá.

A limitação de profissionais é expressiva: a região Norte conta com cerca de 1,19 médicos por 100 mil habitantes, ainda de acordo com entrevistada. Nesse contexto, muito provavelmente não é coincidência que mulheres indígenas apresentem risco até 80% maior de mortalidade por câncer de colo do útero - dados, citados pelo projeto, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Diagnóstico

A estratégia adotada aposta em tecnologia para encurtar distâncias. Com o uso de telecolposcopia, exames são realizados dentro das próprias comunidades e analisados remotamente por especialistas.

"O projeto funciona com o envio de um telecolposcópio e um notebook para a região. Profissionais locais, capacitados, realizam o exame e inserem os dados na plataforma de telessaúde. A partir disso, um médico especialista analisa as imagens e emite o laudo à distância", detalha Gabriela Sá.

O laudo é remoto e permite o diagnóstico precoce mesmo sem a presença física do especialista nas aldeias, reduzindo a necessidade de deslocamentos longos e ampliando o acesso ao cuidado em regiões de difícil acesso, uma realidade comum na Amazônia.

Os números já são significativos: mais de 62 mil atendimentos em regiões remotas do Brasil, com previsão de cerca de 60 mulheres atendidas por ação nos polos do Alto Rio Negro.

Formação local e autonomia

Outra prioridade do projeto é a capacitação de profissionais da própria região, o que reduz a dependência de equipes externas e amplia a continuidade do cuidado.

"Já capacitamos mais de 30 profissionais dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) da região, com treinamento técnico para rastreamento do câncer de colo do útero e uso do telecolposcópio, além da operação da plataforma de telessaúde", afirma a porta-voz.

A presença de profissionais indígenas também impacta diretamente na adesão aos exames. Há maior aceitação quando o atendimento é realizado por enfermeiras indígenas, especialmente em contextos de diversidade cultural e linguística.

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Saúde, território e floresta

O projeto se conecta à tradição da agenda ambiental: a permanência das populações indígenas em seus territórios. "Ao levar tecnologia e capacitação para dentro das aldeias, o modelo evita que as mulheres precisem abandonar seus territórios e costumes para buscar diagnóstico em centros urbanos", destaca Gabriela Sá.

Cuidar da saúde dessas mulheres é também preservar a continuidade dos saberes tradicionais e da própria organização dos territórios.

Terras indígenas estão entre as áreas mais preservadas da Amazônia, e o fortalecimento das condições de vida nessas regiões é apontado como elemento-chave para a proteção do bioma. Na Amazônia, áreas fora de terras indígenas já perderam mais de 27% da vegetação, enquanto dentro das terras indígenas o desmatamento é de apenas 1,74%, de acordo com dados do Instituto Socio Ambiental (ISA).

Modelo replicável

Desenhado como um "living lab", o projeto busca validar soluções que possam ser ampliadas para outras regiões. "O objetivo é gerar evidências de viabilidade e transformar a solução em um modelo estruturado de cuidado, que possa ser replicado e integrado ao SUS (Sistema Único de Saúde)", afirma a especialista.

A inciativa indica que tecnologia e conhecimento local podem caminhar juntos para enfrentar desigualdades históricas. E, ao mesmo tempo, reforçar quem está na linha de frente da preservação da Amazônia.

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