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Dia do Meio Ambiente: contatos e colonização levam hepatite aguda a índios da Amazônia

Viaecologica-Brasília-DF
07 de Jun de 2004

No Dia Mundial do Meio Ambiente, que se comemora hoje (5), milhares de indígenas da Amazônia já não conseguem sobreviver em seu habitat natural sem doenças e conflitos de interesse decorrentes do avanço da colonização branca e cabocla sobre a floresta. A antiga "febre negra de Lábrea", no rio Purus, está de volta, agora no vale do Javari, identificada cientificamente como uma nova combinação de dois tipos de virus da hepatite, quase sempre letais - a hepatite B e D, conhecida como a forma hemorrágica da doença com síndrome aguda. Ocasionada pela união dos vírus B e delta da Hepatite, a doenaça pode dizimar, em 20 anos, os povos que vivem na segunda maior reserva indígena do Brasil: o Vale do Javari. O alerta é da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), por meio de seu presidente, Jecinaldo Satere-Mawé. O sertanista Sidney Possuelo, coordenador-geral de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), confirma a possibilidade de a síndrome aguda que assola o Javari se espalhar para outras regiões, pois 22 índios da etnia isolada dos Korubo se afastaram do grupo maior, formando uma pequena comunidade, a qual tem feito contato do tipo intermitente com Possuelo e sua equipe. Não existem estatísticas oficiais, nem sequer estimativas, mas, de acordo com o Conselho Indígena do Vale do Javari (Civaja), semanalmente índios são transportados da reserva para receberem atendimento de saúde. Em 2003, 15 indígenas, de diferentes povos, morreram vítimas da síndrome. O diagnóstico, de acordo com o Civaja, é sempre o mesmo: Síndrome Febril Ictero Hemorrágica Aguda. A entidade revela que, naquela ocasião, somente duas das vítimas tinham feito sorologia (exame para identificar a presença do vírus da hepatite no sangue). Os resultados foram positivos. A reserva do Vale do Javari é a segunda maior do país, com dimensão semelhante à de Portugal. Nela vivem 3.500 índios, das etnias Kanamari, Kulina, Matis, Mayuruna e Marubo. Em todo o território existe um único posto de saúde, localizado na cidade de Atalaia do Norte. A dificuldade de acesso à região é grande e as possibilidades de deslocamento reduzidas, especialmente em certas épocas do ano. Thor Dantas, médico infectologista, especialista em doenças tropicais e gerente do Hospital Geral das Clínicas de Rio Branco (AC), confirma que a região do Javari apresenta alto grau de contaminação pelos vários tipos de vírus de hepatite. Entre eles, aponta, o da hepatite delta, forma muito agressiva e de difícil reversão da doença, que em sua forma aguda passou a ser registrada pela história como "peste negra de Lábria". O vírus da hepatite delta só pode se manifestar a partir da convivência no organismo com o vírus tipo B da hepatite. É a união destes dois agentes infecciosos que provoca a síndrome aguda. Os medicamentos para combater o vírus tipo delta tem se mostrado ineficazes, alcançando sucesso em menos de 10% dos casos e resultando em graves efeitos colaterais. Porém, a vacina contra o tipo B é altamente eficaz. Isso, na avaliação do especialista, poderia impedir o aparecimento da chamada 'superinfecção' - resultante da combinação desses dois vírus no organismo humano. A manifestação da hepatite delta desencadeia febre, hemorragia generalizada e outros inúmeros sintomas. Vários exames são necessários para confirmar o diagnóstico. "Uma vez manifestada a síndrome, as chances de salvar esta vida estão sempre próximas de zero. Apenas a prevenção, através de vacinação e uso de preservativo nas relações sexuais, pode salvar estas pessoas, evitando a infecção simultânea pelos tipos B e Delta", alerta o especialista. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão federal responsável pela saúde indígena, é acusada pelas entidades do Vale do Javari de omissão no atendimento às vítimas da síndrome. Afirmação com a qual concorda o sertanista Sidney Possuelo, coordenador-geral de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai). Segundo ele, se essa mesma situação fosse verificada em "qualquer cidadezinha do País" as autoridades sanitárias mandariam isolá-la. Iraneide Barros, coordenadora de atenção à saúde indígena da Funasa, rebate as críticas. Ela afirma que o órgão tem uma política para aquela região, mas encontra dificuldades para colocá-la em prática. "Estávamos trabalhando apenas com um barco", relata, reconhecendo que a instituição sabe do alto grau de contaminação por hepatite na região. "Agora, nem todos apresentavam os sintomas da superinfecção, mistura dos tipos B e D de vírus. Não morreram de febre hemorrágica. Precisamos testar outras doenças, como o hantavírus e mesmo a malária", defende, segundo a Agência Brasil, do governo.De acordo Ponsuelo, parte dos índios continua a manter contato com os isolados e passaram a estabelecer relações com comunidades abertas e brancas. Isto tem preocupado o coordenador da Funai. "E se houver contaminação destes povos? Nós não vamos nem ficar sabendo. Eles podem aparecer todos mortos de repente", comentou à Rádio Nacional da Amazônia. Possuelo explica que os isolados também são chamados de arredios ou autônomos. "São aqueles que não vão à cidade, não falam português, andam nus e vivem exclusivamente da caça e pesca. É o que há de mais próximo ao que Cabral encontrou quando chegou por aqui", detalha o sertanista. No Javari, habitam as três categorias de índios descritas: os isolados, os de contato intermitente e os integrados. (Veja também www.funai.gov.br, www.coiab.org.br, www.funasa.gov.br, www.cimi.org.br, www.kaninde.org.br, www.radiobras.gov.br, www.saude.gov.br, www.hepatus.org.br, www.cpt.org.br).

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