VOLTAR

Devastação leva porcos-do-mato a destruir lavouras para sobreviver no Mato Grosso do Sul

O Globo - http://oglobo.globo.com
10 de Set de 2010

Com a redução das áreas de floresta - habitat natural dos porcos-do-mato - ataques de animais desta espécie a lavouras no Mato Grosso do Sul se tornam cada vez mais comum e causam perdas consideráveis. Na região de Rio Brilhante, o prejuízo de produtores rurais ultrapassa R$ 1 milhão somente nesta colheita. A estimativa é do Sindicato Rural do município, que promove nesta sexta-feira, com o apoio da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), uma reunião com produtores e autoridades para apresentar a extensão do prejuízo e discutir o que pode ser feito para reduzi-lo.

Segundo a coordenadora do Sindicato Rural de Rio Brilhante, Adalgisa Regina Ramos, que organiza o evento, os ataques dos animais prejudicam a produção de milho safrinha na região.

- Os produtores vêm até nós para reclamar. Há casos de quem perdeu R$ 110 mil, outro R$ 200 mil com os ataques. A situação é grave, pois envolve números altos de prejuízo - informa.

O que acontece é que os porcos-do-mato comem as plantações de milho. Segundo Adalgisa, há alguns anos os ataques eram bem raros, mas os animais começaram a cruzar com outras espécies de porcos e o número aumentou muito.

- O Ibama proíbe a caça desses animais, o que deixa os produtores sem instrumentos de defesa. Resolver o problema é uma responsabilidade das autoridades pois o produtor não tem meios legais de proteger suas plantações - enfatiza.

Em Brasilândia, a 408 km de Campo Grande, lavouras de milho, mandioca e feijão também estão sendo devastadas por bandos de porcos-do-mato. A invasão desses animais está apavorando pequenos produtores, que não podem abatê-los, tampouco enfrentá-los.

Confinados numa reserva de 6 mil hectares depois da formação do lago da hidrelétrica de Porto Primavera, os porcos-do-mato aumentaram sua população e o alimento natural - frutos, talos e raízes - se tornou escasso. A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) realiza estudos na reserva e espera transformá-la em RPPN (Reserva Particular de Proteção Natural).

Para o veterinário Carlos Alberto dos Santos Dutra, do Instituto Cisalpina, os animais ficaram "mal acostumados" em processos de manejo e vão atrás de alimento fácil nas lavouras, embora considere outros fatores para a invasão, como a redução das áreas de florestas.

O Instituto Cisalpina é mantenedor de reserva natural, que tem pouco mais de 6 mil hectares e promove estudos sobre animais da região, especialmente os porcos-do-mato. A reserva fica a 18 km de Brasilândia e estima-se que tenha uma grande população da espécie. Em toda área de influência da barragem de Porto Primavera, vivem animais que hoje estão ameaçados de extinção, como o jacaré-do-papo-amarelo, as antas e os cervos-do-pantanal.

Carlos Alberto Dutra disse que o Instituto Cisalpina, está buscando uma solução para evitar mais prejuízos. Segundo ele, os animais chegam em bandos de até 40. Atacam as plantações de milho, mandioca e feijão. Ninguém ousa enfrentar os porcos-do-mato. Para espantá-los, os produtores detonam fogos de artifício.

As lavouras devastadas pelos porcos pertencem a produtores que foram reassentados após a inundação de 7% do território de Brasilândia. Eles fazem parte da Associação de Produtores Agroecológicos de Subsistência Familiar do Reassentamento Santana e Santa Emília.

A bióloga Floriana Débora de Souza Ladeia, do Departamento de Estudos e Pesquisas do Instituto Cisalpina, está ajudando os produtores a se proteger dos visitantes indesejáveis.

Técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e do Ibama também foram chamados para discutir uma forma de conter os animais na reserva. Os produtores já decidiram cercar as propriedades com arame, mas eles querem que a Cesp cubra os prejuízos e encontre um meio de manter os porcos-do-mato dentro da reserva ambiental.

"Tayassu Pecari"

O queixada, nome vulgar da maior das duas espécies dos porcos-do-mato que vivem no Brasil, tem o corpo coberto por pêlos longos e grossos, de coloração cinza-escuro. Uma glândula na base da cauda produz um odor forte e característico, que age como fator de coesão do grupo e de marcação de território. Pode tornar-se agressivo e até mesmo atacar o homem, quando acuado.

Seu habitat natural são florestas densas e úmidas. O queixada se alimenta de frutos, raízes, talos e pequenos animais, tendo grande capacidade de deslocamento.

Sobre essas características o Instituto Cisalpina sugere que a reserva mantida pela Cesp é insuficiente para manter tantos indivíduos. Logo após a inundação provocada pelo represamento do Rio Paraná para construção da hidrelétrica de Porto Primavera, a Cesp introduziu na reserva 90 animais. Hoje eles devem passar de 400 segundo estimativas.

Segundo o Instituto Cisaltina, o lago da usina da Cesp inundou mais de 3 mil pés de manga, fontes naturais de alimentação dos queixadas e catetos.

- Quando o lago foi formado, técnicos arrebanhavam os animais com cevas de milho e mandioca. Por isso hoje eles são atraídos pelas plantações - acredita Carlos Alberto Dutra.

Para o veterinário, a solução imediata é cercar as lavouras, mas defende que a Cesp promova com as queixadas estudos que já são feitos para o controle da população de catetos, que são da mesma família dos porcos-do-mato.

- A derrubada das áreas florestadas é a principal ameaça ao habitat natural desses animais - garante.

http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2010/09/10/devastacao-leva-porcos-d…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.