O Globo, O País, p. 12
23 de Set de 2007
Devastação da Amazônia volta a crescer
Serrarias operam a todo vapor, e só em agosto foram registrados 16.592 focos de calor nas florestas da região
Rodrigo Taves
Enviado especial
O cenário é desolador. O avião sobrevoa uma extensa área completamente esturricada, ainda há focos de fogo na vegetação, a floresta arde. O piloto faz uma curva radical à esquerda, e logo se vêem toras de castanheira, árvore protegida da Amazônia, agonizado em chamas. Sobem grossos rolos de fumaça, que deixam o ar quase irrespirável.
Mais à frente, muitas outras castanheiras estão sendo queimadas.
O clima a bordo do monomotor Cessna Caravan do Greenpeace é de velório. Já não resta dúvida: o Parque das Castanheiras, no município de Cláudia, Norte de Mato Grosso, área de Floresta Amazônica, está sendo destruído pelo fogo.
Informações reunidas já permitem afirmar que o ritmo de devastação da Amazônia, que diminuíra 49% nos últimos dois anos, voltou a aumentar a partir de maio de 2007. Pelos dados do PrevFogo, o número de queimadas em áreas de floresta cresceu 30% este ano em relação a 2006.
Só em agosto, foram registrados 16.592 focos de calor em florestas, o dobro do mesmo mês do ano passado. Em maio último, quando a curva dos gráficos voltou a subir, o desmatamento registrado foi quatro vezes maior que em maio de 2006. Em Mato Grosso, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) já detectou aumento de 200% no desmatamento nos meses de maio, junho e julho deste ano, interrompendo a trajetória de queda.
Cuiabá em estado de emergência
Em campo, os sinais do problema são dramáticos: o aeroporto de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, passou três dias fechado, semana passada, por causa da espessa fumaça.
Quando o avião do Greenpeace se prepara para pousar, a torre de controle avisa que a visibilidade é de apenas 1.600 metros. Da cabeceira da pista, não se vê a outra extremidade. Cuiabá decretou estado de emergência, e um dos motivos é a fumaça.
Em Novo Progresso (PA), cidade à beira da BR-163 (Cuiabá-Santarém), há anos um dos focos da devastação da Amazônia, até o fazendeiro Agamenon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais, admite:
- Este ano, os produtores daqui derrubaram muito mais, muito mais mesmo. Ainda nem terminou o prazo para pagamento do ITR (Imposto Territorial Rural) e já sei que cresceu pelo menos 50%. Enquanto não houver políticas públicas, o produtor vai sempre desmatar para fazer um dinheiro maior.
Como os levantamentos oficiais, feitos com base em imagens de satélite, são sempre demorados, o próximo relatório, referente ao período entre agosto de 2006 e julho de 2007, ainda deverá indicar uma redução no desmatamento. No período 2005/2006, foram desmatados 14 mil quilômetros de floresta, e agora espera-se algo em torno de 9.600 quilômetros quadrados.
Não é pouco: só entre 2000 e 2005, foram devastados 130 mil quilômetros quadrados no Brasil, o equivalente ao território de Portugal e Espanha somados. Mas a retomada do crescimento a partir de maio só irá aparecer nos números oficiais no ano que vem.
Nas serrarias da Amazônia, o ritmo de trabalho é incessante, num sinal claro dos fatos que os números ainda não revelam. O piloto do Greenpeace sobrevoa agora a localidade de Moraes de Almeida, também na BR-163, no Oeste do Pará. É um lugarejo inexpressivo, com não mais de dois mil ou três mil moradores, mas contam-se 12 serrarias abarrotadas de toras, com as chaminés dando sinais do trabalho frenético que se desenrola ali embaixo. A temporada de desmatamento começou em julho e vai até outubro, antes da época das chuvas. Neste momento, muitas das árvores que tombaram este ano já estão sendo beneficiadas. E pelo menos 90% da madeira é de origem ilegal.
Apesar disso, a atividade criminosa corre solta, praticamente sem a intervenção do Ibama.
Em Novo Progresso, onde uma base operativa do órgão ainda funciona precariamente debaixo de plástico preto, os fiscais até apreenderam, num dia da semana passada, 13 caminhões repletos de jatobás e ipês, que saíam à noite de uma estradinha vicinal. Os motoristas foram autuados e multados. Houve um protesto de moradores e, no dia seguinte, até o prefeito, que é filiado ao PT do presidente Lula, foi ao posto pedir a liberação da madeira apreendida. Não foi bem-sucedido, mas o analista ambiental Décio Motta, chefe do Ibama na base, que trabalha sob a proteção de soldados do Exército, admitiu sentir a pressão:
- Ainda não começamos a fechar as madeireiras. Se fizermos isso, o impacto será maior sobre as comunidades. Deixaremos esse trabalho para o fim, só não me pergunte quando.
"Área é concedida a madeireiros"
Um temporal eliminou um pouco da fumaça e o avião agora sobrevoa a Floresta Nacional Jamanxim, no Oeste do Pará, uma unidade de conservação que teoricamente deveria estar sob a proteção federal, mas onde há sinais de queimadas recentes e enormes clareiras abertas na floresta. Como essas e outras unidades existem no papel e o Ibama não consegue protegê-las, as motosserras continuam a todo vapor.
É uma área de concessão concedida aos madeireiros.
Criaram as florestas nacionais, mas é como se nada tivesse acontecido - protesta Marcelo Marquesini, do Greenpeace.
Pelos dados da ONG, mesmo com a redução dos últimos anos, só no governo Lula (a partir de 2003) já foram desmatados sete milhões de hectares na Amazônia. No ritmo atual de desmatamento, em 2050 só restará 40% do bioma, e estará aberto o caminho para o que os especialistas chamam de savanização da floresta.
'O governo não vai conseguir nunca o desmatamento zero'
Corpo a Corpo
Agamenon da Silva Menezes
Líder de 3.500 produtores de uma das regiões da Amazônia onde há maiores taxas de desmatamento, Agamenon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso, no Pará, desafia o governo, avisa que desmatamento zero é utopia e afirma que os fazendeiros só vão parar quando passarem a receber em troca benefícios do governo federal.
O Globo: Os fazendeiros de Novo Progresso continuam usando as motosserras?
Agamenon da Silva Menezes: O governo não tem políticas para parar o desmatamento, por isso vai se continuar desmatando, isso não terá fim.
Que políticas seriam necessárias, num momento em que o governo estuda até proibir as queimadas e determinar o desmatamento zero durante cinco anos?
Agamenon: O governo não vai conseguir nunca o desmatamento zero. Será que ele tem cadeia para botar 30 mil homens dentro? Enquanto não tiver políticas públicas para atender os moradores da Amazônia, não haverá desmatamento zero.
O que vocês querem é regularizar a posse de áreas públicas?
Agamenon: Eu já propus uma política de regularização em troca de parar com o desmatamento. Eles têm de regularizar a situação atual, que já vem de mais de 20 anos, e criar condições para evitar o desmatamento. É preciso estimular o produtor a implantar outras culturas agrícolas ambientalmente corretas. Mas isso o governo não quer fazer. O governo só vem para cá multar.
Qual a solução para o problema?
Agamenon: A solução é fazer do desmatador um preservador. O Ibama não autoriza os planos de manejo de forma nenhuma. Pode perguntar lá a eles. Não queremos a intervenção de quem não vem aqui com o espírito de contribuir.
Nenhum banco financia a produção de quem não tem o título de propriedade, e depois o governo quer evitar o desmatamento...Se não estão me viabilizando, eu vou desmatar e vender a madeira para fazer um dinheiro maior. É assim que o fazendeiro pensa.
Parece que a devastação está longe do fim.
Agamenon:Querem resolver, venham conversar comigo. Não querem, vai continuar o desmatamento. Este ano, derrubaram muito mais, muito mais. Eu vou fazer o quê, se não tem política pública...( Rodrigo Taves)
O Globo, 23/09/2007, O País, p. 12
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