O Globo, Razão Social, p. 6
06 de Dez de 2011
Despoluição ainda é o desafio
Martha Neiva Moreira*
martha.moreira@oglobo.com.br
Brasília
Com 4,5 mil metros quadrados de extensão, a Bacia do Rio São Bartolomeu vem sofrendo um processo gradativo de ocupação do solo e poluição das águas. Um diagnóstico feito em 2008, pela Fundação Banco do Brasil (FBB), mostrou altos índices de coliformes fecais e lixo em toda a bacia, que corta áreas rurais e urbanos do Distrito Federal e Goiás e áreas degradadas nas margens em razão da prática recorrente de desmatamento para dar lugar ao cultivo agrícola. Mas, um projeto da própria FBB, em parceria com entidades de preservação do meio ambiente, já está mudando a paisagem do lugar.
Trata-se do São Bartolomeu Vivo, iniciativa lançada em 2010 com a meta de plantar um milhão de mudas para recuperar Áreas de Proteção Permanente e Reserva Legal, reflorestar 500 hectares desmatados e contribuir para a despoluição do rio implantando o sistema de pagamento por serviços ambientais, junto com a Agência Nacional de Águas (ANA) (ver box).
Cerca de 135 hectares de área já foram replantados por 90 moradores, de 16 comunidades da região. Eles foram capacitados em um curso gratuito de técnicas de plantio de mudas e sistema de agrofloresta. A ideia, segundo Ingrid Silveira, coordenadora do programa, é que possam servir de multiplicadores para a população de pequenos agricultores da região, que têm a prática recorrente de desmatar as margens do rio para cultivar hortaliças :
- No curso fazemos um trabalho de educação ambiental, além de ensinar técnicas de plantio e sistema de agrofloresta, que é uma maneira de recompor a área verde com espécies nativas, como mandioca, milho e outras culturas, sem acabar com as hortas, fonte de renda dos agricultores.
Josenilton Amorim Nascimento, de 42 anos, participou do curso. Morador de Sobradinho dos Melo, comunidade a uma hora de Brasília nas margens do rio, ele diz ter gostado tanto do que aprendeu que deixou o cultivo de hortaliças, que lhe rendia quase R$ 3 mil por mês, para se tornar estagiário do viveiro de mudas do projeto.
Hoje, na função, ele recebe por mês cerca de R$ 600, mas diz que não se arrepende. Justifica a decisão dizendo que não aguentava mais contribuir para a poluição da bacia usando grandes quantidades de agrotóxicos na produção e desmatando as margens para criar hortas.
- Interessei-me em participar do curso depois que vi uma palestra sobre o projeto.
Fiquei muito incomodado com o que via diariamente no rio: animais mortos e todo o tipo de lixo na água - contou Josenilton, que atribui tanto descaso à falta de interesse dos moradores da região em conhecer o rio. - Tem gente nascido e criado aqui que jamais chegou perto da margem, nunca viu o leito e, por isso, não criou um relação de cuidado com o rio. Esta cultura tem que mudar, ou a despoluição não será possível - completou.
Ingrid Silveira reconhece que a despoluição do rio ainda é um desafio do projeto, que deve ganhar fôlego com o sistema de pagamento por serviços ambientais a ser lançado até março pela Agência. Dados do portal da ANA dão conta que a bacia sofre com despejo de esgoto, rejeitos de irrigação e ocupação desordenada do solo.
- Nossa equipe percorre constantemente as comunidades e o que observamos é que grande parte das pessoas ou tem uma relação utilitária com o rio, usando sua água para irrigação, ou local de depósito para o lixo. Eles precisam, de fato, de um incentivo para deixar de desmatar e conservar a bacia. Estamos, no momento, fazendo o trabalho de conscientização sobre a importância de manter a água do rio limpa e de de não desmatar - contou Ingrid.
Até agora a FBB já investiu R$ 3,5 milhões no projeto São Bartolomeu Vivo e vai investir mais R$ 10 milhões na parceria com a ANA.
* A repórter viajou a convite da Fundação Banco do Brasil
Pagamento de serviços ambientais a partir de março
Na última quinta-feira a Agência Nacional de Águas (ANA) firmou um acordo com 13 parceiros, entre eles a Fundação Banco do Brasil (FBB), para implantar, a partir do próximo ano, nas margens do rio Pipiripau, um dos afluentes do São Bartolomeu, o pagamento por serviços ambientais. Segundo Devanir Garcia, gerente da ANA, o edital do programa, de adesão voluntária, está sendo redigido e o valor para conservação do solo e recursos hídricos já foi definido:
- Os agricultores que quiserem aderir ao sistema, poderão receber, em média, até R$ 160 por hectare de solo conservado por ano -contou Garcia.
Há cinco anos a equipe da ANA está trabalhando em um sistema de pagamento por serviços ambientais, como estratégia para minimizar o impacto na Bacia do São Bartolomeu.
- A agricultura na região se intensificou muito e a irrigação acaba contribuindo para reduzir a vazão da bacia, que é uma das principais fontes de abastecimento de cidades satélites como Planaltina e Sobradinho.
Os agricultores tem que ter um incentivo para criar forma de conservar a água, do contrário vão continuar desmatando para plantar.
O edital será lançado até março. Quem aderir vai receber orientação técnica e incentivo de crédito para criar projetos de conservação do solo. O investimento total no projeto é de R$ 40 milhões e, segundo Garcia, a proposta é estender o sistema para toda as regiões da bacia.
O Globo, 06/12/2011, Razão Social, p. 6
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