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Desocupação da Amazônia

Diário de Cuiabá
Autor: Onofre Ribeiro
30 de Mar de 2008

"Mato Grosso é um barril de pólvora, com a pressão do MST, dos quilombolas e dos índios", disse-me na sexta-feira o coordenador indígena do governo estadual, Rômulo Vandoni. O estado tem 23 etnias indígenas, todas com suas reservas indígenas demarcadas, etc. Mas existem 21 projetos de ampliação, propostos pela Funai, anos e anos depois da demarcação original das anteriores, agora com algumas aberrações muito estranhas e sob pretextos inexplicáveis. Na prática, se essas reservas forem ampliadas, alguns municípios no Vale do Araguaia desaparecerão, e outros em todas as regiões serão profundamente mutilados. Grande número de propriedades legalizadas e tituladas pelo governo, com certidões de liberação da Funai, serão expropriadas e os donos não receberão indenizações, porque é tradição da Funai não pagar o que a lei determina.

Mas a questão indígena é só uma vertente do problema. A operação Curupira, em 2005, deu início a uma seqüência de operações policiais com um fim claro: desocupar a Amazônia de presenças humanas que não sejam os sem-terra e os chamados povos da floresta, garimpeiros, seringueiros e índios. A operação Curupira atingiu os madeireiros e feriu a
economia do norte e do noroeste de Mato Grosso. Depois as operações seguintes desmontaram a fé dos habitantes. A Operação Arco de Fogo não é nada. O que conta são os dados do Inpe, divulgados premeditadamente pelo Ministério da
Meio Ambiente e que deram origem à operação. Os dados foram orquestrados de caso pensado.

Na seqüência, o governo federal enviou uma força-tarefa de procuradores federais para cobrar as dívidas de multas nos setores de base florestal. "Um bate com urtiga e o outro passa sal grosso de baixo pra cima", disse-me nesta semana o amigo escritor Luís Gonçalves.

Depois da Operação Arco de Fogo e dos procuradores federais, seguramente virão outras operações para forçar a desmotivação dos habitantes da Amazônia até o seu completo esvaziamento. O ex-deputado José Lacerda possui um estudo que mostra todas as propostas de criação de parques naturais, reservas e ampliação de áreas indígenas em estudos ou em andamento, que cercam e isolam completamente a Amazônia. Não entrará nada e nem sairá nada. Esse movimento, comandado pela Funai e pelo Ministério do Meio Ambiente, em conjunto com organizações não-governamentais nacionais e estrangeiras, deixa bem claro que toda a Amazônia será cercada ao sul, ao norte, ao leste e ao oeste. Na prática, isso fará os habitantes, para saírem do isolamento, irem embora da região.

Uma vez desabitada, não se sabe quais são os planos do governo ou do Ministério do Meio Ambiente, que tem vida própria dentro da administração Lula. Por que isso está acontecendo em Mato Grosso? Simples: porque Mato Grosso é grande produtor, e porque o silêncio na operação Curupira e nas operações posteriores mostrou que o estado é vulnerável de lideranças políticas e empresariais capazes de articularem uma reação.

Já que Mato Grosso não reage, o Ministério do Meio Ambiente está completando a estratégia de desocupar a Amazônia. Sob o mais rigoroso silêncio dos mato-grossenses. Aquela divisão sonhada pelos habitantes do Nortão será feita por outro caminho: o da desocupação pura e simples!

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