CB, Brasil, p.16
15 de Mar de 2005
Desnutrição: mal desconhecido
ONU critica a falta de dados sobre a situação nutricional do brasileiro, carência que pode dificultar o desenvolvimento de políticas públicas para cumprir as Metas do Milênio
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Pouco se sabe sobre a situação nutricional do brasileiro. Além da carência de informações, os recursos de programas voltados à garantia do direito à alimentação são parcos, e a execução orçamentária, baixa. Os alertas foram feitos ontem, em Brasília, na abertura da 32ª Sessão do Comitê Permanente de Nutrição das Nações Unidas. O encontro, que reúne representantes do governo e da sociedade civil de vários países, tem como objetivo avaliar políticas públicas e elaborar medidas de combate à fome e à desnutrição.
Os dados sobre o Brasil foram apresentados pelo Ministério da Saúde, que divulgou relatório de 300 páginas com diagnósticos e ações de relevância para a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio, diretrizes traçadas pela ONU e que devem ser cumpridas até 2015. Apesar de, em 2004, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) ter traçado o perfil antropométrico dos adultos brasileiros, somente neste ano haverá informações sobre deficiência de nutrientes na população e estado nutricional de crianças. O desconhecimento da situação nutricional do brasileiro pode comprometer o cumprimento das metas, que incluem objetivos como a erradicação da fome e da mortalidade infantil.
Recursos
O relatório aponta a fragilidade das ações governamentais relacionadas à alimentação. O programa Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário e Agroindustrial para a Inserção Social, da Embrapa, por exemplo, tem orçamento anual de R$ 18,5 milhões mas, no ano passado, a execução foi de apenas 13%. Já o Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Aplicados à Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério da Ciência e Tecnologia, conta com minguados R$ 315 mil para 2005.
Responsável pelo comando do Fome Zero, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, diz que a sociedade também deve se envolver no combate à desnutrição, mas com parcerias sérias. O direito à alimentação não pode depender apenas da boa vontade das pessoas. Nós queremos construir cada vez mais parcerias estruturantes, parcerias que impliquem também, além dos gestos fundamentais de boa vontade e das iniciativas generosas, compromissos entre Estado e sociedade mais permanentes, com metas e objetivos a serem cumpridos.
O programa foi destacado pelo relatório do Ministério da Saúde como prioridade do governo no combate à fome e a desnutrição. O Fome Zero recebeu elogios da ONU, que recomendou ações similares aos outros países em desenvolvimento. O Brasil ainda precisa avançar, mas é possível tirar vantagem do que já foi feito, afirma Catherine Bertini, presidente do Comitê Permanente de Nutrição da Organização das Nações Unidas (ONU).
Outra ação positiva apontada pelas Nações Unidas foi a criação do Conselho Nacional de Alimentação e Nutrição. Sem tal órgão, seria difícil criar um grupo de políticas e programas de alimentação e nutrição suficientemente articulados para realizar o direito à alimentação adequada, e acelerar o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio, aponta o documento Coletânea de Estudos de Casos Nacionais, do Standing Committee on Nutrition, lançado ontem durante o evento.
O número
Fora da ordem 77 milhões de brasileiros não consomem a quantidade mínima de calorias recomendada pelas Nações Unidas
Índios são os mais atingidos
De 1975 a 1996, houve queda de 70% nos casos de desnutrição infantil no Brasil. Porém, as Nações Unidas destacam que ainda há graves desigualdades entre regiões, grupos étnicos, gênero e situação de renda. A ONU aponta que indígenas e quilombolas não costumam ser incluídos em pesquisas, e, segundo o Ministério da Saúde, estudos indicam taxa de desnutrição de mais de 55% em crianças índias.
No Mato Grosso do Sul, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) identificou este ano 124 crianças desnutridas, sendo que 22 encontram-se em estado grave. Mais de 300 estão abaixo do peso. No total, são 467 crianças, ou 19,9% das 2.336 examinadas, com algum tipo de problema. Desde janeiro, 12 crianças da etnia guarani-caiuá morreram devido à desnutrição.
Prematura
Ontem, uma menina indígena de 37 dias de vida, que nasceu prematura e corre risco de morte, foi transferida de avião de Dourados a Campo Grande. O bebê, da etnia guarani-caiuá, sofre de má-formação congênita e conseguiu atendimento médico porque a Funasa fretou um avião. Na cidade onde nasceu, a 220 quilômetros da capital do Mato Grosso do Sul, nove crianças indígenas morreram este ano, sendo que seis foram vítimas de desnutrição.
CB, 15/03/2005, p. 16
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