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Autor: Daniel Vinagre
03 de Fev de 2026
Um estudo científico publicado em janeiro de 2026 na revista Nature Communications indica que o desmatamento acumulado nas últimas décadas é o principal responsável pela queda consistente das chuvas no sul da Amazônia. A pesquisa foi conduzida pelos cientistas Jiangpeng Cui e Shilong Piao, acompanhados por Chris Huntingford, Tao Wang e Dominick V. Spracklen, mostra que a remoção da floresta não afeta apenas as áreas desmatadas, mas altera profundamente o transporte de umidade atmosférica em escala regional, enfraquecendo o próprio funcionamento climático do bioma.
O estudo "Historical deforestation drives strong rainfall decline across the southern Amazon basin" é uma análise que cobre o período entre 1980 e 2019 e traz um alerta central, a Amazônia pode estar se aproximando de um ponto crítico de degradação climática muito antes do que indicavam as projeções utilizadas até agora por modelos oficiais.
Embora a relação entre floresta e chuva seja conhecida há décadas, ainda havia incerteza sobre quanto da redução recente das chuvas poderia ser atribuída diretamente à perda de cobertura florestal, e quanto seria resultado de outros fatores climáticos globais. O estudo buscou preencher essa lacuna, examinando como a interrupção da reciclagem de umidade da floresta afeta o clima regional e compromete a resiliência do ecossistema.
O que o estudo revela sobre as chuvas?
Os resultados indicam um comportamento desigual da precipitação na bacia amazônica. Enquanto o norte da região apresentou estabilidade ou leve aumento das chuvas, o sul da Amazônia registrou uma redução contínua e estatisticamente significativa.
Nesse trecho da bacia, a precipitação caiu entre 3,9 e 5,4 mm por ano ao longo das últimas quatro décadas, acumulando uma perda total de 8% a 11% da chuva anual. Segundo os autores, mais da metade dessa redução, entre 52% e 72%, está diretamente associada ao desmatamento ocorrido tanto localmente quanto em regiões de onde vêm os ventos que transportam umidade para o sul da Amazônia.
Como o desmatamento altera o clima?
O estudo demonstra que a floresta não é apenas um elemento passivo da paisagem, mas parte ativa do sistema climático. A remoção da vegetação interfere em três processos centrais.
O primeiro é a redução da evapotranspiração, mecanismo pelo qual a floresta devolve grandes volumes de água à atmosfera. O segundo é o aumento da estabilidade atmosférica, que dificulta a formação de nuvens e tempestades. O terceiro é a aceleração da saída da umidade da bacia amazônica, fazendo com que parte significativa do vapor d'água não se transforme em chuva na própria região.
Esses efeitos combinados explicam por que a maior parte da queda de precipitação no sul da Amazônia está ligada à perda de umidade reciclada da terra, e não à diminuição da umidade vinda do oceano.
Desde meados da década de 1980, a Amazônia perdeu cerca de 16% de sua cobertura florestal original. No sul da bacia, a redução foi particularmente intensa. O estudo mostra que essa perda se traduziu em uma queda expressiva da reciclagem de umidade, responsável pela maior parte da chuva regional.
Os dados indicam ainda uma diminuição relevante da capacidade da atmosfera de gerar chuvas, medida por indicadores físicos como a Energia Potencial Convectiva Disponível, além do aumento da distância percorrida pela umidade antes de precipitar. Na prática, isso significa que a água permanece menos tempo sobre a Amazônia e passa a alimentar sistemas climáticos em outras regiões.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores combinaram observações de satélite com modelos avançados de rastreamento de umidade atmosférica. O método permitiu separar a chuva originada da evaporação oceânica daquela gerada pela própria floresta, algo essencial para identificar o papel específico do desmatamento.
Os autores também ajustaram dados de evapotranspiração com base no balanço hídrico de sub bacias amazônicas, buscando reduzir incertezas comuns em análises de longo prazo. Além disso, criaram uma métrica que considera não apenas o desmatamento local, mas também a perda de floresta em regiões distantes que contribuem com umidade para a chuva, reforçando a ideia de que os impactos do desmatamento são interligados em escala continental.
As conclusões do estudo se aplicam com maior força ao sul da bacia amazônica, onde a perda de floresta ocorreu em larga escala e de forma contínua. Também se estendem a regiões que dependem da umidade transportada por ventos vindos de outras áreas da floresta, mesmo que não tenham sido diretamente desmatadas.
Por outro lado, o padrão identificado não se repete no norte da Amazônia, onde o desmatamento é menor e as variações de chuva estão mais associadas a mudanças na radiação solar. O estudo também ressalta que desmatamentos muito localizados podem produzir efeitos distintos em escala curta, que não se mantêm quando a perda florestal se torna generalizada.
Limitações e alertas
Os autores reconhecem que a relação entre desmatamento e redução de chuvas foi estimada com base em tendências históricas e pode se tornar não linear em cenários de degradação extrema. Há também limitações associadas à resolução dos dados de cobertura florestal e à dificuldade de monitoramento em regiões com alta cobertura de nuvens.
Ainda assim, o estudo é enfático ao afirmar que os modelos climáticos atualmente utilizados subestimam de forma relevante a sensibilidade da precipitação ao desmatamento, o que pode atrasar respostas políticas diante de um risco crescente de colapso do sistema amazônico.
Confira o estudo completo
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