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Desenvolvimento sustentável

Valor Econômico, Opinião, p. A11
Autor: VEIGA, Jose Eli da
28 de jul de 2015

Desenvolvimento sustentável
Rascunho da declaração realça cinco áreas: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceria

Por José Eli da Veiga

A derradeira negociação formal preparatória à Cúpula da ONU que adotará os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para os próximos quinze anos será encerrada sob a lua cheia de sexta-feira 31 de julho. Mas já parecem bem consolidados os dezessete ODS livremente traduzidos no quadro, mesmo que os próximos quatro dias ainda tragam alterações ao texto da declaração final, ou até que haja extraordinário imprevisto nos quase sessenta dias prévios à apoteose nova-iorquina de 27 de Setembro.

Está mais do que na hora, portanto, de chamar a atenção para os avanços, não apenas em relação aos oito já sepultos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), mas, principalmente, à concepção de desenvolvimento sustentável homologada há três anos pela declaração da Rio+20, "O futuro que queremos".

Os redatores dessa declaração foram movidos pela obsessão de legitimar a tese de que o desenvolvimento sustentável só teria três dimensões: econômica, social e ambiental. Não deram o braço a torcer sequer em passagens com inescapáveis alusões a outras dimensões do processo de desenvolvimento (cultural, política, institucional, etc.). Preferiram exorbitar com 21 repetições dessa fórmula "3D", com certeza na vã esperança de que virasse verdade.

Ironicamente, também foi a declaração "O futuro que queremos" que exigiu um processo bem aberto à participação da sociedade civil com vistas à superação dos ODM, o que não poderia ter deixado de iluminar o caráter multidimensional do desenvolvimento. Ensaios de reagrupar os dezessete ODS nunca chegam a menos de discutíveis sete "temas".

Já o rascunho da declaração a ser adotada em 27 de setembro ("Transforming Our World; The 2030 Agenda for Global Action") realça cinco "áreas de crítica importância", todas começando com a letra "p", e nesta ordem: Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parceria. Mas essa nova litania dos "5P" pode não sobreviver, pois será uma prova explícita demais da estreiteza dos "3D".

Seja como for, muito mais profícua do que essa trama numérica de "dimensões", "temas", ou "áreas", será a estratégia de comunicação. Como fazer para que esses dezessete compromissos globais fiquem bem conhecidos, sejam estudados e discutidos, de modo a se tornarem úteis ferramentas de pressão da sociedade civil sobre os governos de cada um dos 193 estados membros da ONU?

Excelentes iniciativas com esse intuito já estão propostas no site www.globalgoals.org Entre elas, duas que contam com o talento e entusiasmo do cineasta britânico Richard Curtis. Uma imediata, para massificar a mensagem logo na semana posterior à Cúpula: www.project-everyone.org Outra, mais duradoura - em parceria com a Unicef - para desencadear campanha focada nas escolas: www.tes.co.uk/worldslargestlesson. E a organização encarregada desses trabalhos na América Latina é a brasileira Mandalah, consultoria do criativo Lourenço Bustani: www.mandalah.com.

Essas experiências não tardarão a mostrar, contudo, que o problema é suficientemente complexo para que só possa ser bem abordado a partir do ensino médio. E que os conteúdos dessa etapa do aprendizado são fortemente orientados para o que estiver sendo cobrado em suas três inevitáveis catracas: vestibular, Enem e entrevista de emprego.

Por isso, não bastará que docentes e administradores dos colégios também se entusiasmem pela promoção dos ODS. O desenvolvimento sustentável só poderá ser entendido por estudantes adolescentes à medida que seu imenso alcance histórico for sendo assimilado, tanto pelo conjunto do sistema de ensino, quanto pelas empresas.

Daí ser crucial que cada país já tenha algum dispositivo online capaz de disponibilizar a todos esses agentes o máximo de informações sobre cada um dos dezessete objetivos. Mas em suas línguas, claro.

José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP) e autor de "A Desgovernança Mundial da Sustentabilidade" (Editora 34, 2013). Página web:
www.zeeli.pro.br

Valor Econômico, 28/07/2015, Opinião, p. A11

http://www.valor.com.br/opiniao/4151952/desenvolvimento-sustentavel#

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