VOLTAR

Descaso do poder público e o medo de novas chuvas

O Globo, Opinião, p. 16
13 de Dez de 2012

Descaso do poder público e o medo de novas chuvas

A maior tragédia climática de que se tem notícia na história do país está a um mês de completar dois anos. Em janeiro de 2011, o céu desabou sobre a Serra Fluminense, arrastando encostas, uma quantidade imensurável de entulhos morros abaixo, destruindo casas, ruas, bairros inteiros. A macabra contabilidade do flagelo deixou registrados oficialmente a morte de 918 pessoas, o desaparecimento de outras 215 e milhares de desabrigados.
Dois anos depois, revelam reportagens que O GLOBO publica desde ontem, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, cidades devastadas, pouco ou nada avançaram não só na tarefa de reconstruir as áreas destruídas, mas igualmente na adoção de um eficiente sistema de prevenção contra danos de temporais.
À chegada do verão, estação de fortes chuvas, a região permanece perigosamente vulnerável às enxurradas. Especialistas advertem que basta uma com metade do volume de água que caiu naquele janeiro para provocar nova tragédia na Serra. O quadro descrito reforça o temor: famílias que conseguiram escapar da fúria das águas voltaram a ocupar áreas de risco, obras de contenção de encostas se arrastam, em Friburgo um refúgio de apoio criado pela prefeitura fica em área alagadiça e próxima a pontos de risco de desabamento.
Como flagelo adicional, que só aumenta o drama local, ruínas de imóveis destruídos pelas chuvas viraram cracolândias. Isso, é fundamental que se lembre, sem contar as perversas ações de desvio de verbas destinadas à reconstrução das cidades. Em vez de apressar obras e minorar o sofrimento de flagelados, parte do dinheiro liberado em regime de urgência tomou destinação bem diversa, engordando contas bancárias de políticos e empresários que se mancomunaram para tirar proveito da tragédia. Em suma, tudo bem diferente do que se devia fazer para socorrer as centenas de famílias que até hoje sofrem as consequências da calamidade, agravadas pelo descaso e incompetência do poder público.
O governo estadual, à frente do processo de reconstrução das cidades, assegura que as ações estão sendo encaminhadas dentro do previsto, devido à magnitude do que aconteceu na serra. A ver. Mas não se pode escamotear o fato de que a região não está livre do risco de, antes mesmo de as consequências da enxurrada de dois anos atrás terem sido sanadas, ser vítima de nova catástrofe.
É de se registrar que a tibieza de ações de prevenção de desastres climáticos não se restringe à Serra Fluminense ou a poucas áreas de risco. Um estudo do IBGE mostra que menos de 10% das prefeituras do país contam com planejamento em setores de infraestrutura para enfrentar intempéries. No Rio, apenas 17 dos 92 municípios têm planos contra desastres como o da Região Serrana. Um quadro preocupante.

O Globo, 13/12/2012, Opinião, p. 16

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.