Valor Econômico, Internacional, p. A11
Autor: CHIARETTI, Daniela
27 de Jul de 2016
Desastres climáticos podem agravar conflitos
Daniela Chiaretti
Ondas de calor e secas aumentam o risco de conflitos armados em países de alta diversidade étnica. Pelo menos 25% dos embates que acontecem em países divididos por questões étnicas coincidem com desastres climáticos, segundo um novo estudo lançado ontem na Alemanha.
Pesquisadores do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), um dos mais conceituados institutos de pesquisa alemães, baseado em Potsdam, junto com pesquisadores do centro de pesquisas Climate Analytics, fundado em 2008 em Berlim, analisaram dados das últimas três décadas.
"Desastres naturais devastadores relacionados à mudança do clima têm potencial disruptivo e que parece ter papel particularmente trágico em sociedades com divisões étnicas", diz Carl Schleussner, cientista do PIK e do Climate Analytics, segundo nota à imprensa.
"Desastres climáticos não são o gatilho que provoca a turbulência. Mas podem aumentar o risco de explosão de um conflito que está enraizado em um contexto específico", continua a nota. Parece intuitivo, reconhecem os cientistas, que dizem ter encontrado uma maneira científica de rastrear a tese.
O que este estudo tem de original é a análise de dados de perdas econômicas ligadas a desastres naturais da líder de seguros Munich Re.
O estudo abrangeu o período entre 1980 e 2010 e cruzou dados usando um método matemático que analisa a coincidência de eventos. Será publicado no PNAS (Proceedings of the US National Academy of Sciences) e os autores esperam que ele possa servir para ajudar a desenhar políticas de segurança. O tema tem especial interesse. Emissões de gases-estufa provocadas por atividades humanas irão aumentar os desastres naturais, dizem os cientistas climáticos, e assim aumentar riscos de conflitos e migrações.
Jonathan Donges, co-autor do estudo e pesquisador do PIK, disse que ele e seus colegas ficaram surpresos pelos resultados de países divididos por conflitos étnicos comparados com outros que têm questões históricas, de pobreza ou desigualdade. "Achamos que a divisão étnica pode servir como uma linha de conflito predeterminada. Quando entram fatores de tensão adicional, os países multiétnicos se tornam particularmente vulneráveis ao efeito de desastres deste tipo."
A África Setentrional e Central e a Ásia Central são regiões propensas a conflitos, também muito vulneráveis à mudança do clima e caracterizadas por divisões étnicas profundas, ressaltam os pesquisadores. "O nosso estudo evidencia um benefício colateral da estabilização climática: a paz", diz Hans Joachim Schellnhuber, diretor do PIK e co-autor do estudo.
Schellnhuber foi um dos principais cientistas climáticos a aconselhar o Papa Francisco em sua famosa encíclica "Laudato sí", sobre mudança do clima, de maio de 2015. "A mudança do clima provocada pelo homem irá aumentar as ondas de calor e as secas regionais. As nossas observações, combinadas com o que sabemos sobre o aumento dos impactos da mudança do clima, podem ajudar políticas de segurança a centrar esforços em regiões de risco."
O estudo não provê uma avaliação de risco para países específicos. "Conflitos armados e desastres naturais são, felizmente, eventos raros. Dados específicos são limitados e não suficientes para análises estatísticas", diz a nota.
Valor Econômico, 27/07/2016, Internacional, p. A11
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