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Desafios amazônicos

O Globo, Economia, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
22 de Ago de 2013

Desafios amazônicos

Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

Há dez dias, sentada ao meu lado num evento promovido pelo Globo, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, me garantiu que o desmatamento não estava aumentando. Segundo ela, esse tipo de crime ambiental estaria mais fragmentado, distribuído por várias áreas, mas que o número total permanecia mais ou menos o mesmo. Será? Entre aumentar quase 100% e permanecer estável existe uma diferença amazônica.

Procurei um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, o professor Dalton Valeriano, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Há dez anos ele não faz praticamente outra coisa que não seja analisar, através dos sistemas Deter e Prodes, os dados fornecidos por satélites sobre o desmatamento na região. O professor foi logo dizendo que não queria polemizar com o Imazon, mas garantiu que os números que apareciam no seu computador não batiam com os da ONG.

Segundo Dalton Valeriano, apenas os resultados do Deter de agosto de 2012 e de maio de 2013 mostraram um crescimento maior das áreas degradadas. Nos demais, não houve alteração importante. Uma região degradada hoje pode se transformar numa área devastada amanhã. Cobrei os resultados do Deter de junho e julho. Ele disse que os números estão com o Ministério do Meio Ambiente, serão divulgados nos próximos dias, mas não trarão nenhuma grande novidade.

O professor lembrou que o sistema Deter é muito semelhante ao utilizado pelo Imazon, mas que não serve para medir o desmatamento. Ele funciona como um indicador de atividades fora do padrão na floresta. Estes relatórios são enviados diariamente para as oito bases de fiscalização do Ibama instaladas na Amazônia. O sistema não identifica áreas desmatadas inferiores a 25 hectares. E, nos últimos anos, 65% dos registros de desmatamento ocorreram exatamente nestes locais.

A informação mais confiável, utilizada nos relatórios oficiais, é a do sistema Prodes, que será divulgada em novembro. Foi ele que registrou os desmatamentos de 29 mil km², em 1995, 27 mil km², em 2004, e 4.571 km² no ano passado. Francisco Oliveira, diretor de Políticas para o Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, aposta que o número deste ano será parecido com o do ano passado. Talvez um pouco maior, mas longe dos níveis apontados pelo Imazon.

O Procurador da República do Pará, Daniel Avelino, acredita num aumento da ordem de 20% a 30%, principalmente por conta da queda acentuada dos últimos anos. Ele divide os responsáveis em quatro grupos, com partes iguais de culpa. Os primeiros são os assentamentos do Incra, que assinaram um termo de ajustamento de conduta como Ministério Público e prometem zerar os seus desmatamentos.

O segundo é o próprio governo, que deveria ser mais rigoroso nos licenciamentos ambientais para a construção de estradas e hidrelétricas na região. O terceiro e o quarto são a pecuária e os produtores de grãos. Principalmente a soja e o milho. Já o professor Dalton Valeriano acha que o grande problema da Amazônia continua sendo a grilagem de terras e a especulação imobiliária. Aliás, o novo paraíso para esse tipo de negócio é o distrito de Castelo dos Sonhos, no sudoeste do Pará.

O climatologista Carlos Nobre, há anos estudando a região, não tem dúvida de que a solução para a Amazônia é econômica. Segundo o INPE, 18,2% da floresta já foram desmatados, cerca de 750 mil km². Se 500 mil km², mais do que dois estados de São Paulo, fossem usados por uma agropecuária moderna e eficiente, não haveria tanta pressão sobre o meio ambiente. Hoje, 60% do que já foi destruído é ocupado por gado. Na proporção de menos de uma cabeça por hectare. Na Argentina são três cabeças por hectare, nos EUA, são quatro ou cinco.

Além disso, existe todo o potencial da biodiversidade, que praticamente não é explorado. O melhor exemplo continua sendo o do açaí, um negócio que movimenta mais de US$ 10 bilhões em todo o mundo. Em 2009, na COP-15, em Copenhague, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir o desmatamento em 80%. Estamos próximos da meta, mas ainda não será este ano que chegaremos lá. Se trocarmos o debate enfadonho em torno dos números por ações mais concretas em busca de soluções talvez seja mais fácil alcançar esse objetivo.

O Globo, 22/08/2013, Economia, p. 28

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