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Desafio seria levar questão ambiental a todo o governo

OESP, Nacional, p. A6
15 de Mai de 2008

Desafio seria levar questão ambiental a todo o governo
Para especialistas, sucessor deve continuar meta de Marina de incorporar sua área a outros ministérios

Roberto Almeida

A marca da gestão Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, segundo especialistas, foi a tentativa de adotar a transversalidade. Segundo este conceito, as preocupações ambientais têm de ser divididas entre todas as áreas do governo. Para os especialistas, o primeiro desafio de Carlos Minc é continuar construindo esse diálogo e, de preferência, levar a questão ambiental à Presidência.

O diretor da ONG Amigos da Terra Mario Menezes espera que o ponto de partida de Minc seja uma reunião com a Casa Civil e os ministérios da área econômica. "O projeto tem de ser aquele mesmo que Marina tentou e não foi adiante. Os ministérios nunca assumiram o componente ambiental. Se o sucessor não tiver convicção para enfrentar isso, fará uma gestão pífia."

O pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) Paulo Moutinho concorda e pede solução definitiva para a questão ministerial. Para ele, não há condições para afrouxar o posicionamento com alguns setores do governo. "Os problemas que a ministra enfrentava são os mesmos que o próximo vai ter de enfrentar. A abordagem proposta por Marina precisa ser mantida."

Esta abordagem tem estreita ligação com o combate ao desmatamento da Amazônia. Os especialistas consultados mostraram-se favoráveis à posição de Marina e preocupados com o que está por vir. "Qualquer passo para trás é um retrocesso", diz Menezes. "Manter o controle é o grande desafio", concorda o diretor da SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani.

Segundo Mantovani, o problema tem visibilidade internacional e pressão interna para ser resolvido. Para ele, as obras previstas pelo Plano de Amazônia Sustentável (PAS) não são o problema, mas também não representam a solução. "As obras não têm a menor importância ao lado das hidrelétricas de Jirau e Madeira e da mineração que vem despontando." É pela dificuldade de lidar com o problema, por sua complexidade e proporções, que Mantovani sustenta: o ideal é mergulhar nos fenômenos que estão por trás do desmatamento, como as dificuldades na regularização fundiária e o caso dos arrozeiros da reserva Raposa Serra do Sol.

O pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Adalberto Veríssimo, acha que uma solução seria transformar o assunto em prioridade no governo. "Não tem santo no ministério que dê jeito e não tem ministro carismático que resolva essa equação econômica em conjunto com a equação ambiental", ressalta. "Agora que o 'selo Marina' foi removido da pasta, é preciso colocar a Presidência no centro do debate. Lula, ele sim, deveria gerenciar. O desmatamento aumentou e não há previsão de que o ritmo vá aliviar nos próximos anos."

Para Veríssimo, o ministro terá de fazer muito bem o dever de casa e explorar uma contradição já enraizada. "O difícil vai ser curar essa fratura exposta que é a relação entre desenvolvimento e meio ambiente", diz. "Marina conseguiu estabelecer bons diálogos com a sociedade civil. O desafio é conseguir resultados que, por sua vez, gerem processos em que diferentes segmentos estejam incluídos."

OESP, 15/05/2008, Nacional, p. A6

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