Agência Câmara-Brasília-DF
Autor: Reportagem - Paula Medeiros Edição - Regina Céli Assumpção
22 de Mar de 2005
Os deputados da comissão externa que investiga a morte de INDÍGENAS por desnutrição no Mato Grosso do Sul estão hoje no município de Dourados, onde já morreram 12 crianças INDÍGENAS. Durante a manhã, eles conversaram com líderes das etnias que vivem na região e também ouviram responsáveis pelo hospital que atende crianças desnutridas.
As crianças mortas tinham até dois anos de idade. Todas chegaram ao hospital com quadro grave de desnutrição e estavam abaixo do peso e da altura para a idade. Das 39 crianças INDÍGENAS internadas, 9 são de aldeias de Dourados e 30, de outras aldeias do estado. O Centro de Recuperação Nutricional é referência no Mato Grosso do Sul e as crianças internadas recebem dieta balanceada até estarem recuperadas. O problema, segundo os médicos, é que alguns índios não aceitam o tratamento dos brancos.
Desinformação
O médico do Centro de Recuperação Nutricional Franklin Sayão afirmou que ele têm de trabalhar sempre com convencimento. "Anteontem fui procurado pelo pai de uma criança que estava com uma diarréia de difícil cura, que já estava há três dias internada. O pai me disse: 'doutor, essa doença o senhor não cura, não. É doença de índio. Quero levar meu filho para o benzedor da aldeia'. Tentei argumentar, mas não adiantou".
O coordenador da comissão externa, deputado Geraldo Resende (PPS-MS), ressalta que houve importante encaminhamento de recursos do Governo Federal, que inaugurou em Dourados o Programa Fome Zero Indígena, com aporte de R$ 5 milhões. O deputado informou ainda que o governo estadual repassou R$ 608 mil. "Queremos ver se as ações com esses recursos não tiveram impacto na melhoria das condições do povo indígena. O Governo municipal também tem divulgado ações. O questionamento que fazemos é : porque apesar de tantos recursos há casos como esses, uma verdadeira tragédia humana, um genocídio, que se abate sobre a população indígena do Mato Grosso do sul e está se reproduzindo em outros estados?".
O deputado João Grandão (PT-MS) lamenta que as informações colhidas pela comissão são de que esses problemas são antigos.
Reclamações
Os deputados já visitaram as aldeias Bororó e Jaguapiru. Nessas aldeias vivem 11 mil índios, em 3475 hectares. De acordo com antropólogos, seriam necessários 300 mil hectares para que os índios pudessem manter o modo de vida tradicional. Os índios reclamam que não têm terra para plantar milho e mandioca; que aqueles que têm um pedacinho de terra não têm sementes nem máquinas para o plantio; e que a cesta básica doada pelo Governo não dura o mês todo. Joana Sampaio Ribeiro, que é avó de duas crianças mortas, denunciou que falta roupa, comida e não tem água. O município de Dourados tem a segunda maior população indígena do estado.
Audiências
A comissão promoveu audiência pública nesta manha com o prefeito de Dourados, José Laerte Cecílio Tetila; com médicos e representantes do Ministério Público Federal. A partir das 15 horas, haverá nova audiência pública no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do estado, com a presença de lideranças INDÍGENAS.
À noite, os parlamentares seguem para Campo Grande (MS). Amanhã haverá outra audiência pública marcada para as 8h30, na Assembléia Legislativa de Campo Grande. Estão convidados:
- o coordenador regional da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Mato Grosso do Sul (MS), Gaspar Francisco Hickman;
- o ex-chefe do Distrito Sanitário Especial Indígena da Funasa de Mato Grosso do Sul, Wanderley Guenka;
- o secretário de Trabalho, Assistência Social e Economia Solidária de Mato Grosso do Sul, Sérgio Wanderley Silva;
- o ex-superintendente de Epidemiologia e Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria em Mato Grosso do Sul, Rubens Trombini Garcia;
- o presidente da CPI da Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul, instituída para apurar a Desnutrição Infantil Indígena, deputado estadual Maurício Picarelli;
- o administrador Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) - Núcleo de Dourados/MS, Israel Bernardo da Silva.
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