CIR-Boa Vista-RR
27 de Mai de 2003
A demora do Governo Federal na homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol e o incentivo do estado de Roraima à presença não-índia na área pode ter impactos ambientais e humanos em proporções inimagináveis, após trinta anos de luta dos povos macuxi, wapichana, ingarikó, taurepang e patamona. A expectativa em torno de uma possível revisão dos limites da terra indígena é o incentivo que faltava aos garimpeiros para o seu retorno ao rio Maù - marco da fronteira entre Brasil e Guiana.
Apurando uma denúncia do Conselho Indígena de Roraima - CIR, o administrador regional da Funai, Martinho Andrade sobrevoou o rio Maù, da 'corrutela' de Mutum até a de Uiramutã, na manhã do dia 22 de maio. Acompanhado pelo coordenador do CIR, Jacir José de Souza, ele pôde constatar pelo menos seis balsas de garimpo em atividade mineraria.
Fotografias do sobrevôo são contundentes. Uma balsa está ancorada no Maù a menos de mil metros da 'corrutela' de Mutum, um dos cinco vilarejos instalados no interior da Raposa Serra Sol. A base de apoio ao garimpo tem a permanência defendida pelos inimigos dos índios, na proposta de demarcação em ilha. Políticos, fazendeiros, rizicultores e militares pretendem excluir da área as 'corrutelas' de Socó, Uiramutã, Água Fria, Surumu e Mutum, além de lavouras de arroz, estradas, sede municipal e fazendas tituladas pelo Incra.
A última retirada de garimpeiros da Raposa Serra do Sol ocorreu em fevereiro de 1998 por determinação do Ministério Público Federal. Em dezembro daquele ano, o ex-ministro da Justiça, Renan Calheiros, assinou a portaria de demarcação administrativa da terra indígena. Há quase cinco anos as comunidades aguardam a homologação da terra, que carece apenas da assinatura de um decreto pelo presidente da República.
A visita do ministro da Justiça, Márcio Tomás Bastos, ao estado de Roraima para fazer uma 'inspeção' na Raposa Serra do Sol e ouvir todos os agentes interessados na homologação, a favor ou contra, está gerando aos inimigos dos índios a expectativa de que poderá haver um retrocesso no reconhecimento definitivo da terra.
'Corrutelas' - Os cinco vilarejos instalados no interior da terra indígena são os principais responsáveis pelo retorno de garimpeiros à Raposa Serra do Sol, pois servem para o suprimento de mercadorias que abastecem o garimpo. As corrutelas fornecem bebida alcoólica e tornam-se centros de prostituição.
A classe política local considera os povoados essenciais para o desenvolvimento do estado. Mutum tem 28 famílias não-índias, Uiramutã 30, em Socó são 13 e na Água Fria, apenas nove. Uma carta citando nominalmente os "pais de famílias" de cada vilarejo foi entregue ao presidente da Funai, Eduardo Almeida, na recente visita que ele fez ao estado de Roraima.
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