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Demarcação acirra conflito em Roraima Economia

Jornal do Commercio-Manaus-AM
18 de Jun de 2003

A visita do ministro da Justiça, Márcio Tomaz Bastos, a Roraima, com a missão exclusiva de se informar sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, escancarou, entre os últimos dias 10 e 12, uma luta à semelhança daquela descrita na Bíblia entre Davi e Golias no Norte do país. Com a presença de mais de dois terços dos tuxauas das 151 comunidades indígenas que compõem Raposa Serra do Sol, as lideranças relataram ao ministro, em detalhes, a sua versão da história indígena da região. O ministro garantiu "uma solução a favor dos índios", apesar da pressão de políticos e representantes do setor produtivo de Roraima.

Conflito histórico

A visita do ministro serviu para mobilizar a elite política e econômica local, em mais uma tentativa de restringir os direitos dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Empresários, políticos, militares, rizicultores e outros ocuparam os meios de comunicação para, de todas as formas, desmerecer a luta indígena e desqualificar aqueles que os apóiam.

No encontro com a sociedade civil no dia 12, pecuaristas e rizicultores (latifundiários do arroz) apresentaram seus argumentos contra a homologação da T. I. Raposa Serra do Sol, baseados, sobretudo, na pretensão de expandir suas propriedades no interior das terras indígenas. Fizeram questão de destacar que as terras, uma vez garantidas aos índios, inviabilizam o desenvolvimento do Estado, pois a única forma de produção que conseguem vislumbrar, é aquela baseada na propriedade privada e na monocultura.

Nos argumentos dos líderes do governo não foi feita nenhuma referência aos impactos socioambientais que provocam com a poluição do ar, da água e da terra com o uso indiscriminado de agrotóxicos. Não faltaram também as referências saudosistas ao tempo em que "existia a paz" em Roraima. Tempo esse em que os índios haviam sido expropriados de suas terras e eram peões das fazendas, explorados em uma relação trabalhista que beirava a escravidão.

Encontro

151 comunidades indígenas que compõem a T. I. Raposa Serra do Sol participaram dos debates com o ministro da Justiça contando sua versão dos conflitos na região.

Marcas deixadas na terra

A classe política roraimense "esqueceu" as suas divergências para afinar seu discurso contra os índios. Curiosamente, começaram a falar que são a favor da demarcação de Raposa Serra do Sol em área única, mas desde que sejam excluídas as vilas, estradas, os arrozeiros (que entraram na área indígena em 1993), e as terras necessárias para a construção de uma hidrelétrica no rio Cotingo.

As vilas (ou "corrutelas" de garimpo como são chamadas pelos índios) produzem muito pouco. Na sede do município de Uiramutã que ocupou a aldeia indígena de Uiramutã, vivem 115 não-índios (garimpeiros e outros invasores) rodeados por uma vila com 380 indígenas. Nas demais áreas a presença de índios é constante e soberana.

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