O Globo, Ciência, p. 30
16 de Abr de 2013
Degelo milenar
Aquecimento da Antártica atingiu o maior índice dos últimos mil anos
RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br
Em mil anos, o degelo da Antártica nunca foi tão intenso quanto no último meio século. A conclusão é de um estudo da Universidade Nacional da Austrália e do Centro Britânico de Pesquisas da Antártica (BAS, na sigla em inglês). Os pesquisadores consideraram o resultado de seu levantamento mais uma prova de como o aquecimento global afeta a península - especialmente no verão, estação em que os cientistas realizaram o projeto - e acelera a perda de volume das geleiras.
A temperatura da Antártica aumentou 1,6 grau Celsius em 600 anos, segundo as medições realizadas na Ilha James Ross, no norte da península, onde vários blocos de gelo desintegraram- se nos últimos vinte anos. O ritmo deste aquecimento não foi uniforme. Os termômetros elevaram-se com velocidade dez vezes maior na segunda metade do século XX.
- Outras pesquisas atribuem o aumento da temperatura à força dos ventos do Oeste, que trazem ar quente e úmido para a península, e que este fenômeno tem se intensificado devido às mudanças climáticas induzidas pelo homem - lembra Robert Mulvaney, pesquisador do BAS, coautor do levantamento. - Nosso estudo mostra que a área onde fizemos o estudo está entre as que experimentaram o mais rápido aquecimento do planeta.
DERRETIMENTO RECORDE IMINENTE
Mulvaney ressalta que, mil anos atrás, a temperatura antártica não era maior do que a atual. Os pesquisadores apenas concordaram que seria melhor restringir a pesquisa ao último milênio. E foi possível analisar dados tão antigos após perfurarem a calota a 364 metros de profundidade. A cobertura de gelo da Antártica está entre as mais limpas do mundo. É possível analisar como a neve se acumula a cada período, sem perda da antiga. Assim, consegue-se aferir em que momentos houve maior degelo e aqueles onde havia um maior território ocupado pelas calotas. A Ilha James Ross foi particularmente suscetível ao derretimento. Sua temperatura no verão aproxima-se a zero grau Celsius. Uma vez que este índice for atingido, a entrada de energia adicional naquela localidade provocará um degelo ainda mais rigoroso. Plataformas de gelo de vários metros de espessura flutuam ao redor da ilha. Há 50 anos ela aproxima-se deste ponto de degelo. E o destino de toda a península é consenso entre os climatologistas. - O aquecimento continuará, e não apenas na ilha que estudamos - lamenta Mulvaney. - O derretimento será ainda mais rápido, particularmente nas plataformas de gelo. E elas contribuem indiretamente para o aumento do nível do mar.
O Globo, 16/04/2013, Ciência, p. 30
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