CB, Mundo, p. 20
06 de Jul de 2007
Defesa inflamada
Em conferência internacional convocada pela União Européia, Lula rebate críticas ao etanol e garante que energias alternativas serão o motor do desenvolvimento social nos países mais pobres
Da Redação
Um dia depois de selar em Lisboa um acordo que transforma o Brasil em parceiro estratégico da União Européia (UE), o presidente Lula foi até Bruxelas, capital do bloco europeu, para participar como convidado de honra de uma Conferência Internacional sobre Biocombustíveis. Diante de autoridades, acadêmicos e empresários de todo o mundo, ele fez uma defesa apaixonada dos biocombustíveis, assegurando que eles reduzirão, e não aumentarão a pobreza.
Foi uma resposta às críticas, formuladas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e por alguns governos, de que a ampliação dos cultivos voltados para produção de biocombustíveis já estaria provocando desmatamento da Amazônia e aumento do preço dos alimentos. Ontem, a Copa-Cogeca, importante associação de organizações agrárias européias, lançou um alerta para os efeitos negativos, ambientais e sociais, da importação de biocombustíveis de países onde são produzidos a baixo custo.
"A experiência brasileira mostra ser incorreta a oposição entre uma agricultura voltada para a produção de alimentos e outra para a produção de energia", disse Lula. "No meu país, a fome está diminuindo ao mesmo tempo em que os biocombustíveis estão se expandindo", afirmou. O presidente ressaltou que a expansão da cana-de-açúcar no Brasil não prejudica o cultivo de outros produtos agrícolas, pois corresponde a apenas 10% da área cultivada.
O presidente também enfatizou que apenas 0,4% do território brasileiro é usado para a plantação de cana-de-açúcar. "E fica muito distante da Amazônia, região que não se presta para essa cultura", completou. "Se a Amazônia fosse importante para plantar cana, os portugueses que a introduziram no Brasil tantos séculos atrás já teriam levado para lá", brincou o presidente.
A ameaça aos países pobres, para Lula, não é o etanol, mas "as barreiras comerciais" que os países ricos impõem à importação de produtos agrícolas, por meio dos subsídios que entregam aos próprios agricultores. Em outra cobrança, Lula fez um apelo aos governos da UE para criar um mercado internacional de biocombustíveis e não dar "sinais contraditórios ao setor privado", como cobrar taxas que não são aplicadas ao petróleo. "No mundo não há escassez de alimentos, há escassez de renda", acrescentou o presidente, comparando o custo milionário de realizar perfurações e instalar plataformas petrolíferas com a simplicidade da produção de etanol.
Certificação
Lula prometeu que o governo está desenvolvendo um programa brasileiro de certificação para os biocombustíveis, passa assegurar que toda a cadeia de produção respeita critérios ambientais, sociais e trabalhistas consagrados nas normas internacionais e na legislação brasileira, e também exigidos pela sociedade. O presidente também anunciou a realização de uma conferência internacional sobre biocombustíveis em julho de 2008, no Rio de Janeiro.
Apesar das ressalvas de alguns setores produtivos, a Comissão Européia e a atual presidência portuguesa da UE demonstraram sintonia com Lula. "Preocupada com a questão dos produtos agrícolas, de desenvolvimento e, em particular, com a ajuda aos países mais pobres, a UE jamais se associaria a uma estratégia que pudesse causar aquecimento dos preços. Todos os passos que daremos nesse sentido com o Brasil se farão na certeza de que isso não afetará as populações mais pobres. Não temos uma leitura economicista das coisas, mas sistematicamente ponderada pelas questões sociais", disse ao Correio o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas.
A embaixada do etanol
Produção anual do Brasil
Em milhões de litros
2007 21
2016.......44
O álcool combustível brasileiro, extraído da cana, reduz em até 90% as emissões de gases estufa, em relação aos derivados de petróleo. O etanol de milho (EUA) e beterraba (Europa) reduz em apenas 47%
US$ 17 milhões estão sendo investidos no setor
Área planta a com cana para produção de etanol no Brasil (em hectares) 6,7 milhões 8,9% a mais que em 2006
25% de etanol são misturados na gasolina consumida no país
20 paises produzem petróleo e derivados para 200 países
100 países poderiam produzir biocombustíveis a reativação do etanol no Brasil gerou
1,5 milhão de empregos diretos
4,5 milhões de empregos indiretos
A crítica socioecológica
Segurança alimentar
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentos (FAO), a demanda por biocombustíveis provocará aumento de 20% a 50% nos preços dos alimentos até 2016
Os estímulos ao etanol estão ajudando a puxar para cima o preço do milho nos EUA, que exportam o cereal para o México e a América Central. Entre 2007 e 2016, a produção de etanol de milho nos EUA deverá crescer 100%
Sementes destinadas à produção de biodiesel na Europa
Dados da FAO em toneladas
2007 10
2014 21
Desmatamento / queimadas
Ambientalistas alegam que a expansão de cultivos destinados à produção de biocombustíveis reduzirá as florestas tropicais. ONGs apontam o cultivo de cana como causa de esgotamento do solo e de queimadas periódicas
Trabalho semi-escravo
Autoridades européias ameaçam impor barreiras não-tarifarias ao etanol e exigir certificados de que, desde o cultivo, são observadas relações de trabalho não-degradantes e processos auto-sustentáveis
CB, 06/07/2007, Mundo, p. 20
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