Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Corrêa
09 de Set de 2010
Três semanas de ausência são ausência que não acaba mais no parque nacional do Iguaçu. Pode-se passar um tempão sem notícia fresca do país que fica em volta do parque e se chama Brasil. Na volta, está tudo mais ou menos como se deixou na véspera - a campanha presidencial, a popularidade esfuziante do esfuziante presidente Lula, as enquetes eleitorais.
Aqui, não. Um pedaço do ano que passa é quase um ano inteiro perdido. As coisas mudam da noite para o dia. E só voltam, se voltarem, 12 meses depois. Em agosto, a mata estacional semidecídua estava cheia de folhas no chão e quase toda desfolhada nas copas mais altas.
Via-se através da floresta como se ela estivesse transformada numa cortina amarelada e diáfana, pronta para um inverno seco que, a rigor, não veio. Durante a maior parte da estação, pisava em barro vermelho sob um sol que caía no chão da mata, despertando toda a vegetação rasteira que, por falta de luz, hiberna no verão.
Mas o inverno que a mata esperava dá para contar nos dedos. Foram dias esparsos, às vezes gelados, que amanheciam tampados pela névoa e freqüentemente acabavam em tardes esplendorosamente ensoladados.
Em vez do inverno, veio foi uma primavera antecipada, de dias quentes e noites frescas. Pelo visto, as árvores do Iguaçu, reguladas por seus relógios internos, não estão nem aí para as circunstâncias meteorológicas. Porque agora, com a estiagem começando a sério, as cataratas minguando e o rio se encolhendo entre barrancos dia a dia mais altos, a mata está se recobrindo de folhas novas, tenras e luminosas.
Em outras palavras, a postos para fabricar oxigênio, bombeando água de um solo finalmente meio ressecado. Dito assim, parece que a paisagem enfeiou-se. Que nada. Se os parágrafos acima soaram assim, só pode ser despeito de quem perdeu irremediavelmete o espetáculo dessa mudança súbita e radical.
Neste monento, o Iguaçu é, antes de mais nada, das serpentes e dos lagartos, que estão saindo de um longo recesso. Dos pássaros que preparam ninhos. Dos andorinhões-velhos que voltaram a varar a muralha d'água para se pendurar a pino nas pedras atrás das cataratas. Das andorinhas-do-rio, que caçam insetos nas corredeiras e acabam de recuperá-las, com o afloramento das rochas submersas. Os patos selvagens. Todos os bichos que andaram meio sumidos estão de regresso, vindos sabe-se lá de onde.
Navegar no Iguaçu ficou mais difícil para os pilotos do Macuco Safari, obrigados a esgueirar os barcos por estreitos corredores de pedra. Mas, com os barrancos escancarados pelo recuo das águas, melhorou muito para os passageiros. Não há mais roteiro que não exclua os jacarés-de-papo-amarelo, invariavelmente coroados por guirlandas de borboletas coloridas, que devem enxergar suas escamas como salinas vivas mas imóveis, à disposição de suas trombas.
Em resumo, o que se perde em três semanas fora do Iguaçu pode ser inestimável. Mas o que se ganha com a aceleração de sua primavera é assunto demais para este recomeço de conversa. Será o assunto das próximas fotografias e reportagens. E com elas se espera que a ausência seja perdoada.
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